Tarefas da latência na adolescência¹

Jurenice Picado Alvares

Introdução
As elaborações do período da latência² são importantes para o ingresso na adolescência, pois desempenham uma função antecipatória e preparatória para as grandes mudanças que ocorrerão na adolescência.

No período de latência há o aparecimento da capacidade de adiar a ação e a satisfação imediata do desejo em favor do pensamento, constituindo-se defesas específicas contra os impulsos sexuais primitivos, sendo que a mais útil dessas defesas é a de voltar-se para o conhecimento da realidade: etapa do desenvolvimento epistemofílico. Espera-se que na latência haja reorganização intra-psíquica harmoniosa (id, ego e superego) e investimento na realidade externa.

Outra tarefa da latência é a desistência, ao menos conscientemente, dos objetos eróticos primitivos (edípicos) e o direcionamento da energia psíquica para outros objetos, querendo conhecê-los. Nessa fase as crianças tem curiosidade para conhecer o mundo externo e pessoas fora da família. É um período de grande transformação nos modos, formas de pensamento e comportamento social das crianças. (Carignani, 2000)

Este é o momento da formação do caráter e de uma integração mais estreita entre realidade interna e externa, a criança sai da família para o social e cultural.

No caso clínico que apresentarei essas tarefas da latência ainda estavam inconclusas, somando-se a estas elaborações, aquelas relativas à puberdade.

Com o advento da puberdade e o incremento das pulsões sexuais há a necessidade de se fazer o luto do corpo infantil e das figuras primárias. O corpo púbere aparece como revelador das necessidades que se impõem ao adolescente, sem levar em conta seus próprios desejos. São elas: a constatação de pertencer a um dos sexos; a necessidade de aceitar o seu novo corpo; a necessidade de se inscrever numa nova filiação: estabelecimento de novos vínculos (Jeammet, 2005).

Na elaboração dos lutos dos vínculos antigos, há regressão a relações primárias, exigindo um trabalho de re-significações das relações com objetos externos e internos (relativos as figuras primárias e ao próprio self infantil). Resultando em nova organização psíquica e criação de uma nova identidade.

Esse trabalho será facilitado se os lutos primários tiverem sido razoavelmente elaborados até a latência; caso não, a elaboração das tarefas do adolescente serão sobrecarregadas pelas anteriores não realizadas. Isto acontece no caso de Mariana, com o acréscimo de um ambiente não favorecedor de seu crescimento psíquico.

O percurso progressivo/regressivo rumo à vida adulta
Após dezoito meses de análise, Mariana com 16 anos, que chegara para análise aos 15 años trazida por sua avó paterna, conta o seguinte sonho:

Estava dentro de um canal vazio, sem água, com o namorado, havia uma porção de pessoas em volta, atrás dessas pessoas o mar.

Viu seu irmão mais velho vindo na direção dela e do namorado. Tinham recebido de uma colega chapéu e óculos para se disfarçarem, para o irmão não os reconhecer.

Mas, percebendo que o irmão os havia reconhecido, foi andando para o centro, fugindo dele, enquanto ele vinha pelo canto. Ele percebeu e tentou afogá-la, abaixando-lhe a cabeça no mar, dizendo que não era para contar sobre o casamento dele, ameaçando que, se ela contasse, iria se “ferrar”.

Ela conseguiu fugir dele, nadando por debaixo da água.

M associou isso ao fato de o irmão ter contado somente para ela que iria se casar, pedindo- lhe que nada dissesse em casa, e lembrou que, contando o sonho para sua mãe, esta lhe falou que podia ser porque assistira a um filme, antes de dormir, em cujo enredo havia um homem amarrado por uma corrente numa piscina que estava enchendo e ele não tinha como escapar.

Orgulhava-se de o irmão ter contado para ela antes de todos, relatando que era muito ciumenta desse irmão, e ele, dela. Dizia que, quando presenciava uma atitude de carinho dele com a namorada, se afastava. Sentia ciúme.

Mostro-lhe a ambivalência em querer “casar” e o desejo infantil de permanecer para sempre protegida no mar – mãe, com o perigo de morrer afogada, “acorrentada” à essa mãe.

Comentários
No sonho, ela aparece num canal seco fazendo par com o namorado, ambos disfarçados. No horizonte ao longe, o mar. Entre este e o casal, uma multidão.

Parece-me que M sente que, para constituir um casal, precisa estar distante das águas do mar-mãe (num canal seco) e disfarçada (para não ser encontrada pela mãe?). Apesar do disfarce, é reconhecida (como fazendo parte de um casal) pelo irmão, que teme ser atacado pela mãe justamente por querer casar, se M o delatar.

Mas ela foge dele, procurando refúgio no mar-mãe.

M oscila entre querer fazer um casal, e querer voltar para o que acredita ser a proteção absoluta da simbiose materna.

É a sua parte superegoica rígida “irmão”, que lhe mostra sadicamente que, se quiser ficar no “mar-mãe”, pode ser afogada.

Penso que os pais de M, muito infantis, foram um fator importante nas vicissitudes de seus conflitos edípicos, ainda em elaboração. É o irmão que lhe proporciona a oportunidade de crescimento psíquico, de saída da simbiose com a mãe (a qual trata também simbioticamente o pai). Mas este irmão é interiorizado por M, e colorido por ela a partir de suas próprias fantasias como uma figura rígida.

Fragmento de sessão – dois meses depois:
Chega dizendo estar extremamente irritada por ter ficado toda a tarde no salão de beleza,
fazendo escova progressiva nos cabelos. Queixa-se de duas cabeleireiras que tanto puxaram seus cabelos, que, num dado momento, abaixou a cabeça e chorou.

Havia brigado com o namorado, que dizia ser maltratado por ela. Concordou, dizendo ser verdade.

Leu para mim os torpedos que trocaram, enquanto estivera no salão: era ele dizendo que não aguentava mais o mau humor dela. Ela respondeu que então terminassem o namoro. Depois se arrependeu, dizendo ser impulsiva, que no momento não havia conseguido pensar.

Comentários
M parece pensar que, se tratar da beleza, já vira uma mulher adulta, e reclama que eu a maltrato, puxando-a para crescer.

Diz que gosta do namorado, que quer ficar junto dele, assim como quer sair-se bem nos estudos, ficar com cabelo liso, como se bastasse ter sucesso no namoro, na vida escolar e na beleza corporal. Mas agora estava percebendo que tudo isso apenas não a levaria a progresso e desenvolvimento psíquicos.

M começa a constatar que conhecer-se para usar seus recursos verdadeiros e crescer, trazia dor e sofrimento.

Correlação teórico-clínica
A identidade na adolescência somente pode ser obtida pela renúncia à dependência da infância, rumo à dependência adulta da inter-relação com o outro em um vínculo criativo. Isso obriga a fazer um “luto” pelos pais da infância.

Os pais, idealizados pela criança, podem ser denegridos e desvalorizados pelo adolescente.

Necessitam, entretanto, “sobreviver”, pois a tarefa da adolescência não é de uma ruptura com a família, mas sim a transformação de vínculos infantis de relacionamento em um outro tipo de vínculo mais independente, menos idealizado, dentro dos limites da realidade. Na tentativa de reconstruir um self, o adolescente sente necessidade de se afastar dos pais para se reconhecer, processo doloroso para ambos.

A relação de M com a mãe, até então amigável, passou a ser conflitante. Para a mãe era difícil entender qualquer agressividade da filha contra ela. M se afastava para poder crescer, o que era interpretado pela mãe como ódio.

A mãe, padecendo de fibromialgia, com episódios de depressão, parecia à M frágil como mulher. Por isso, ela se apoiava sempre na avó paterna.

M precisou afastar-se do pai, com o qual antes brincava como uma criança, pois ansiedades persecutórias e sentimentos de extrema ambivalência em relação a ele como homem apareceram e, após tê-lo visto brigar com a mãe, passou a odiá-lo. Sem a internalização de um pai cuidadoso, sem possibilidade de uma repressão saudável, M não direcionou sua energia psíquica a novos objetos de conhecimento, com isso sua escolaridade ficara prejudicada.

É na adolescência que o complexo de Édipo se reedita com intensidade, com as peculiaridades anteriores somadas a um novo fator: o desenvolvimento puberal (biológico), que torna possível o exercício efetivo da genitalidade, portanto da consumação da fantasia incestuosa.

Para realizar as elaborações do processo adolescente, no meu entender, M não contava com um casal de pais adultos, mas simbióticos. Este modelo dos pais era repetido na relação com o namorado.

Enquanto esse mundo ambiental infantil permanece, o complexo de Édipo não pode caminhar pelos processos normais de paixão, rivalidade e renúncia.

O reconhecimento, por parte de M, de uma relação sexual adulta entre os pais, poderia proporcionar a introjeção de um casal cuidador, unido, uma representação interna de proteção a ela, individuada e reconhecendo cada um dos pais em sua singularidade.

M conta com o casal irmão/cunhada para poder elaborar seu Édipo. Ao nascer seu sobrinho, também é despertado nela o desejo de ser mãe. Com esse casal, cria-se a possibilidade da elaboração das tarefas edípicas, da paixão e rivalidade edípicas, assim como da introjeção de um casal mais adequado. M sente ciúme da cunhada, quando vê seu irmão lhe fazer um carinho, dar atenção a ela. Fica incomodada, afasta-se ou vira o rosto. Sente muito prazer quando este irmão a chama para acompanhá-lo em alguma viagem de trabalho.

M parecia estar em um movimento de busca por diferenciação, autonomia e singularidade, apropriando-se da sua história em direção à construção da subjetividade.

Blos (1962) diz que é na adolescência que ocorre a segunda individuação, passo final para um sentido de identidade. A individuação adolescente, que representa o final irrevogável de alguns dos mais caros sonhos da infância relegados agora à fantasia, “é acompanhada de sentimentos de isolamento, solidão e confusão” (p.19). Essa compreensão da relatividade e da limitação da própria existência individual “cria um sentimento de medo e de pânico” (p.20).

As aspirações ilimitadas da infância se reduzem “a proporções realistas, de oportunidades e metas limitadas” (p.22).

Como adolescente, M apresenta movimentos progressivos e regressivos em seu funcionamento psíquico, ora funcionando como uma criança, ora como adulta. Nos momentos progressivos, apresenta um pensamento abstrato e uma comunicação predominantemente verbal; nos momentos regressivos, um pensamento concreto e uma comunicação com muitos elementos não-verbais. Esses dois momentos se alternam em curtos espaços de tempo: ora

M quer presente no Dia das Crianças, ora compra lingerie.

Essas oscilações entre extremos opostos, que seriam anormais em qualquer outro período da vida, fazem parte do processo normal da adolescência e vão em direção ao desenvolvimento mental. Nesse período, agem de forma ambivalente: lutam contra os impulsos e os aceitam. (Freud, A., 1958)

Embora as identificações primárias restem como garantias ocultas da permanência e da continuidade do ser em sua descontinuidade (Ladame, 1999), o ideal de ego infantil tem que dar lugar ao ideal de ego adulto, baseado na realidade e não nas idealizações (Blos, 1962).

A função e a mente do analista de adolescentes
Para o estabelecimento do diálogo analítico com adolescentes o analista deve ter um setting interno muito bem constituído, e “que possa evocar introspectivamente sua própria adolescência e suas vicissitudes, para a captação contratransferencial do sofrimento subjacente do adolescente” (Osório, 1993, p.421). Considerando que o adolescente tem dificuldades para revelar sua intimidade é fundamental ao analista uma atitude de paciência e empatia com a dor psíquica do paciente.

É comum o adolescente se apresentar através de uma comunicação impulsiva e a função do analista será de colocar palavras (reflexão) onde provavelmente só haja ação (descarga), como no caso de M quando estava no salão de beleza. O analista deve ser capaz de acolher um acting como ação comunicativa, buscando seu significado, dessa forma poderá ajudar o adolescente a pensar antes de agir, desenvolvendo a possibilidade de contenção, favorecendo a construção de um pensamento próprio.

Penso que a direção do processo analítico é o encaminhamento do analisando para uma maior integração e reconhecimento dos seus sentimentos e tomada de consciência da natureza do seu mundo interno, da sua singularidade, para haver crescimento mental.

O analista deve se tornar intérprete da turbulência interior do adolescente, buscando esclarecê-la ao analisando, para que este possa tornar-se responsável pelas suas formas próprias de responder às questões da vida cotidiana.

Tenho acompanhado M podendo dar continência às dores psíquicas relativas aos lutos a serem elaborados em vários níveis, desde os primários e às angústias relativas ao encontro com o seu desconhecido vir-a-ser.

Dessa forma, constatamos que o trabalho com adolescentes permite consolidar a base para uma vida adulta emocionalmente mais estável e criativa.

 

²O conceito de latência como característica de uma fase do desenvolvimento do ser humano é introduzido por Freud em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLOS, P. (1962). Adolescência: Uma interpretacão Psicanalítica. S.Paulo: Martins Fontes, 1998.

CARIGNANI, P. (2000). A falsa calma da latência. São Paulo: SBPSP, 2000.

FREUD, A. (1958). Adolescence. P.S.C. , 13:255-278.

FREUD. S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da Sexualidade. In S.Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 7. pp.) Rio de Janeiro, 1976.

JEAMMET, P e Corços, M. (2005). Novas problemáticas da adolescência: evolução e manejo da dependência. Casa do Psicólogo, S.Paulo, 2005.

LADAME, F. (1999). Para qué una identidad? O el embrollo de las identificaciones y de su reorganización en la adolescencia. Revue Française de Psychannalyse, 4/1999.

OSÓRIO, L. C. (1993). Psicanálise de Adolescentes. In: Técnica Psicoterápica na Adolescência; organizado por Roberto B. Graña. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

[1] Trabalho apresentado no XXIX Congresso Latino Americano de Psicanálise. São Paulo, 10 a 13/outubro/2012.