Setting analítico: uma nova chance¹

Gley Marques da Silva

 Epigrama nº. 8

 “Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
 fiquei sem poder chorar, quando caí”.
Cecília Meireles

Em todas as teorias psicanalíticas se faz referência ao papel fundamental da mãe na relação com o bebê mas, é com Winnicott, que é dado destaque maior ao ambiente – inicialmente a mãe ou aquele que cuida – como facilitador ou danoso ao desenvolvimento emocional.

O setting analítico poderá ser uma oportunidade de um outro ambiente onde possíveis falhas daquele de origem tenham chance de ser restauradas ou novas experiências criadas. Mas para que isso ocorra, há necessidade que se instaure uma possibilidade de encontro que é carregado de muita vulnerabilidade, pois são dois seres que se desconhecem. Dos pacientes que nos procuram, talvez a única certeza e ponto em comum é que são pessoas em busca de ajuda porque sofrem.

Winnicott (1952) afirma que “a ansiedade mais antiga é aquela relativa a sentir-se segurado de um modo inseguro” e mostra que o ambiente que cuida é dotado de sustentação, para que o ser humano possa se constituir em um indivíduo.

Penso que a vivência de um ambiente que não dá sustentação imprime sua marca, podendo posteriormente, revelar um indivíduo não somente inseguro mas, às vezes, desconfiado e desesperançado.

Cecília veio encaminhada por seu psiquiatra, ambos de outra cidade. Mesmo medicada, apresenta um quadro grave de depressão e me diz logo no primeiro contato que gosta muito do Dr. Mario, que não sabe se vai querer começar um trabalho comigo e se lamenta:

_“Sinto-me muito só nesta cidade”.

Cecília conheceu Dr. Mario numa internação e este lhe sugeriu que após a alta, ele fizesse apenas o acompanhamento medicamentoso. Ao se mudar para minha cidade, Cecília o manteve como seu psiquiatra. Passou a vir ao meu consultório de tempos em tempos. Ligava, marcava um horário e ao final da nossa conversa sempre deixava no ar se continuaria na cidade, se voltaria a me procurar ou se voltaria à sua cidade de origem. Não a percebia indecisa e sim extremamente desconfiada, característica essa também presente inicialmente com o Dr. Mario e que me foi confirmada por ele. Foram cinco meses de consultas esporádicas nas quais eu me sentia alvo de uma profunda inspeção; era como se Cecília me rondasse, examinando-me detalhadamente mas, sem permitir que ocorresse qualquer vínculo de maior proximidade.

Quando Winnicott (1954) escreve que “aquilo que passamos a poder fazer é cooperar com o paciente no seguimento de um processo, processo este que em cada paciente possui o seu próprio ritmo e caminha no seu próprio rumo” entendo que apresenta um dos principais cuidados no manejo de um ambiente que possa ser favorável ao desenvolvimento emocional.

Nos primeiros contatos com Cecília eu não encontrava espaço para a técnica clássica de enquadre, apresentação de contrato nos moldes do trabalho analítico standard, sob pena de que o início do trabalho não ocorresse. Ou esse já era o início? Início possível?¹

Durante esse período, por vezes era o filho de Cecília quem marcava ou desmarcava os horários e quando era Cecília quem o fazia, deixava recado em minha secretária eletrônica, geralmente de madrugada.

Pedia desculpas por estar desmarcando, dizia se sentir sem forças mas, que esperava que eu pudesse compreendê-la.

Winnicott (1954) defende a idéia de que em casos extremos, na pessoa muito doente, há pouca esperança e o “terapeuta teria que ir até o doente e proporcionar-lhe ativamente uma boa maternagem”².

Desta forma, o ambiente representado pelo setting analítico e aquilo que o compõe, basicamente a figura do analista, surge como uma esperança de readaptação e adequação das falhas ambientais anteriormente ocorridas, processo esse que Winnicott denominou de “descongelamento da situação de falha original”

Durante esses meses iniciais, quando Cecília vinha eventualmente, vivi uma experiência muito singular: nada sabia da sua história de vida. Ela gostava de me contar sobre suas impressões a respeito de como observava a vida, a natureza e o ser humano em geral, sem se deter em ninguém de suas relações pessoais. Outra característica desses encontros iniciais eram verbalizações curtas, lançadas subitamente entre longos silêncios, que mais pareciam dirigidas a ela mesma, do que a mim. Na maioria das vezes eu também ficava em silêncio, sendo por ela observada através de um olhar muito firme. Eu tinha a impressão de que ela investigava o quanto me era possível suportar tais silêncios, nos quais eu buscava, muitas vezes inutilmente, alguma significação. Por vezes nela surgia um tímido sorriso entre esses olhares que se sustentavam entre nós, interrompendo aquela experiência de nos olharmos, pois ela baixava os olhos.

Havia um sentido ainda não alcançado por mim mas, o que me parecia claro era se tratar de uma experiência de “non sense” que eu precisava tolerar. Poderia ser esta uma inicial experiência do ficar só, num estágio de imaturidade?

Winnicott (1958) afirma que “estar só na presença de alguém pode ocorrer num estágio bem precoce, quando a imaturidade do ego é naturalmente compensada pelo apoio da mãe” apresentando aqui mais um dos seus paradoxos: só é possível ao bebê experimentar e desenvolver a capacidade de ficar só, na presença de um alguém que lhe dê a sustentação egóica que ainda lhe falta, numa fase de imaturidade.

Sabendo da importância do ambiente para o processo de desenvolvimento emocional, deparamo-nos com a importância da adaptação desse ambiente às necessidades egóicas do paciente, portanto exigindo flexibilidade maior do analista principalmente quando este se depara com estruturas psíquicas ainda não integradas, talvez à espera de um ambiente facilitador, embora ainda assim imperfeito e limitado.

Em alguns dos seus telefonemas, Cecília queria escolher dia e hora para a consulta. Tinha muita dificuldade de se adaptar aos horários que eu dispunha e quando não era possível atendê-la, agradecia, não marcava e me dizia que telefonaria na semana seguinte. Eu não percebia raiva ou indignação, mas uma certa resignação. Uma das vezes consegui dizer-lhe que era difícil eu providenciar, de uma hora para outra, o horário que ela queria – somente entre 14 e 16 horas embora ela não tivesse nenhum compromisso – que assim eu temia que não conseguíssemos nos ver e que talvez ela pudesse se adequar a um daqueles horários que eu estava lhe oferecendo. Disse-lhe também que eu me comprometeria de avisá-la imediatamente, caso houvesse alguma alteração e surgisse o horário que ela preferia. Depois disso, Cecília conseguiu aceitar um dos que estavam disponíveis.

O setting analítico poderá vir a ser expressão de um ambiente de holding quando busca atender às necessidades do paciente, mas exige um manejo em determinadas experiências da dupla analítica, cabendo ao analista uma atenção e atitude particulares a cada paciente.

Somente depois desses primeiros contatos com idas e vindas, sem que ocorresse qualquer possibilidade de um contrato analítico nos padrões habituais, é que foi possível para Cecília aceitar horários fixos.

Logo que pude, ofereci os horários que ela me solicitara e embora para alguns pacientes, esta atitude possa dar margem a atuações, com esta paciente acredito que tenha feito parte do holding necessário para que pudéssemos nos encontrar.

Continuo tendo que fazer algumas concessões: Cecília não aceitou a chave do consultório, me espera no corredor e mesmo com a porta aberta, só entra depois que eu apareço na porta. Seria um temor de ser intrusa? O receio de me procurar e não me encontrar? Uma necessidade de sentir que eu vou ao seu encontro? Ou ainda o temor da intimidade e dependência?

É também nesse período, agora com horários fixos, que Cecília, numa das primeiras sessões, brinda – me com uma valiosíssima revelação: a epígrafe que inicia este trabalho, de sua autora preferida e que ela me traz num pedacinho de papel.

Creio que um ponto fundamental com muitos pacientes como Cecília é uma delicada e sutil adaptação às necessidades de um ser em busca do “vir a ser”, adaptação essa que exige do analista uma presença que busca se identificar com o paciente, não se impõe como uma presença que sufoca, mas não se omite na sustentação necessária.

Tarefa difícil de ser alcançada, expressão da inevitável complexidade do encontro de duas mentes.

 

¹Winnicott (54) apresenta 3 categorias de pacientes e inclui numa delas um tipo de paciente cuja análise ao remeter a estágios muito iniciais de desenvolvimento, necessitam inicialmente um trabalho muito mais voltado para o manejo, do que à análise clássica.

²Para Winnicott,em casos mais graves, essa esperança por uma boa maternagem, não é sequer esperada pelo paciente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 ABRAM, J. (2000) A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter.

WINNICOTT, D. W. (1952) Ansiedade associada à insegurança. In: Da Pediatria À Psicanálise – Obras Escolhidas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2000, p.163 – 167.

___ (1954) Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão no contexto analítico. In: Da Pediatria À Psicanálise – Obras Escolhidas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2000, p. 374 – 392.

___ (1958) A capacidade de estar só. In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990, p.31 – 37.

 

[1] Tema livre apresentado no XIII Encontro Latino Americano sobre o Pensamento de Donald Winnicott – Porto Alegre – 2004.