Por que gostamos de cinema: o espectador de cinema e a psicanálise¹

Maria José Ferreira Mota

Duas das marcas culturais mais importantes do século XX criadas na mesma época: a
Psicanálise por Freud e o Cinema pelos irmãos Lumière, são frutos da capacidade humana
para a auto-reflexão. Na feliz expressão de Rogério Luz (1989, 1993) são espelhos através
dos quais procuramos nos reconhecer. Afinal, continuamos a nos fazer as perguntas do poeta
Carlos Drumond de Andrade no belíssimo poema intitulado, muito a propósito, “Especulações
em torno da palavra homem” (Andrade, 1973): que coisa é o homem, para que serve o
homem, mas existe o homem?

As ligações da psicanálise com o cinema – e aqui não vou examinar as relações do
cinema com a psicanálise – têm caminhado em duas direções principais:

1) Utilizando o referencial teórico psicanalítico para examinar o filme tomando, grosso
modo, a história que o diretor nos apresenta como uma narrativa feita por um paciente
no setting analítico, como o próprio Freud fez com obras literárias. Cabe nesse modo
de aproximar psicanálise e cinema, examinar as motivações inconscientes dos
personagens quase como se fossem pessoas reais. Conforme o conhecimento de
quem faz esse exame também cabe aqui discutir as preferências do diretor, ligando-as
à sua história pessoal.

2) Seguindo uma tendência inicialmente dos próprios teóricos do cinema que colocaram
em diálogo os conceitos psicanalíticos com os conceitos da teoria do cinema, alguns
psicanalistas têm procurado examinar como e porque o filme tem o efeito que tem
sobre nós, levando em consideração que o aparato cinematográfico tem
particularidades que tornam o ato de assistir a um filme muito diferente de ler um livro,
ou assistir a uma peça de teatro. Aqui entre nós, Camila Pedral Sampaio apresentou
interessantes contribuições.

Minha preferência é por essa segunda direção, mais especificamente sobre o que
acontece em nós, conosco, dentro de uma sala de cinema. Por experiência própria todos
sabemos como é diferente ver um filme na televisão, mas não haverá espaço aqui para falar
sobre essa diferença. Vou tentar delinear alguns pensamentos, com a ajuda de dois teóricos
da psicanálise, Donald Winnicott e Christopher Bollas, que podem nos ajudam a refletir sobre
o que acontece conosco dentro de uma sala de cinema.

Roland Barthes (1975) no ensaio “Ao sair do cinema” diz que mesmo antes de
assistirmos ao filme, ao decidirmos entrar no cinema, já estamos em uma situação pré-
hipnótica que ele denomina de “situação de cinema” tomando emprestado o termo a Hugo
Mauerhofer. Ao sairmos do cinema estaríamos em um estado pós-hipnótico. Que experiência
é essa?

Em uma sala escura, em companhia de estranhos, isolados do apelo do exterior,
vemos projetada em uma tela cenas, imagens, ouvimos sons. A imagem reina soberana.
Assistimos a atos e nos sentimos participando deles, atos que a civilização nos proíbe ou
inibe, por vezes sentimos sensações das quais nos envergonharíamos em nossa vida
cotidiana. Também adentramos espaços que, na vida fora do cinema, estariam
impossibilitados para nós. Mas, afinal, é só um filme!

Concordamos com esse isolamento, geralmente ninguém nos obriga a ir ao cinema.
Também concordamos com a perda temporária de nossa singularidade, tanto que nos
incomodamos com celulares tocando, ou pessoas que tussam muito e alto. Somos, no
cinema, um grupo de anônimos estranhos experimentando fortes emoções em conjunto.

Estamos quase que completamente submissos a essa situação. Não podemos
interromper o filme, só nos resta levantarmos da poltrona e sair da sala se algo nos
incomodar, coisa que raramente vemos alguém fazer. Ao contrário, o filme continua
independente de nossa vontade e costumamos conferir isso. Quem não olha para trás se tiver
que sair do cinema no meio do filme como se para verificar o que já sabia: o filme continua!
Além disso, metodicamente realizamos o mesmo ritual, quase o mesmo do início da história
do cinema a cada vez que vamos ver um filme. Entramos na fila, compramos ingresso,
compramos pipoca, nos acomodamos.

Não por acaso, portanto, muitos estudiosos do cinema, das ciências sociais e da
psicanálise, já produziram milhares de páginas discorrendo sobre o que seria a submissão do
espectador. Para uns, essa submissão seria a um aparato orientado ideologicamente, para
outros a situação de passividade colocaria o espectador em um estado regressivo como no
útero materno.

Mas, que acontece conosco ao assistirmos a um filme? O que permite ou favorece que,
ao mesmo tempo em que fiquemos em uma situação de passividade, nos tornemos
extremamente participativos daquilo que acontece na tela?

Há entre o aparato cinematográfico e o olho natural uma série de elementos e
operações comuns que favorecem uma identificação do meu olhar com o olhar da
câmera, resultando daí um forte sentimento da presença do mundo emoldurado na tela,
simultâneo ao meu saber de sua ausência (trata-se de imagens, e não das próprias
coisas). (Ismail Xavier, O Olhar e a Cena)

Da forma como explica Ismail Xavier parece simples, mas nós sabemos das emoções
em alta voltagem que nos abalam em alguns filmes, de tal forma que fica como que misturado
o que sentimos e o que vemos, o que vem de fora, o que vem de dentro de nós, fazendo-nos
duvidar da existência de uma pura interioridade e de uma pura exterioridade. Nosso pensar
lógico que nos conforta com a divisão “ou isto, ou aquilo” é questionado. Podemos sentir isso,
por exemplo, quando, mesmo tendo uma crítica racional a determinado filme, nos
emocionamos com alguma cena do mesmo. Todos nós também já passamos pela experiência
fantástica de, ao mesmo tempo em que nos sentimos transportados para aquele mundo da
tela, sabermos onde e com quem estamos porque, se for o caso, seguramos mais forte no
braço da poltrona, ou no braço do namorado. Mas, estaríamos todos delirando? Ou melhor,
em que mundo estamos quando estamos no cinema?

Ao situarmos a experiência do espectador de cinema como estando, ao mesmo tempo,
completamente imersa no mundo particular de sentimentos, sensações e memórias do
espectador e também conectada à realidade fora do seu controle, nos aproximamos dos
conceitos de espaço potencial e fenômenos transicionais de Winnicott.

Winnicott (1975) formula a hipótese de que quando experienciamos a vida, o fazemos
em um espaço em que as fronteiras daquilo que é nosso, daquilo que é do outro, daquilo que
criamos, daquilo que nos deram, daquilo que observamos objetivamente, daquilo que
sentimos não é claramente delimitado. É um espaço intermediário entre o que chamamos de
interno e o que denominamos externo.

Experimentamos a vida na área dos fenômenos transicionais, no excitante
entrelaçamento da subjetividade e da observação objetiva, e numa área intermediária
entre a realidade interna do indivíduo e a realidade compartilhada do mundo externo aos
indivíduos. (Winnicott, O Brincar e a Realidade)

Aproximando Ismael Xavier e Winnicott, o cinema permite – ou facilita – a circulação
rápida entre aquilo que está lá, fora de mim, e aquilo que percebemos como nossa realidade
psíquica pessoal, nossos conteúdos mentais, sejam conscientes ou inconscientes porque o
próprio veículo ao mesmo tempo em que possui uma poderosa condição de evocar estados
subjetivos, mantém sua objetividade jogando-nos diretamente na experiência humana de
ambiguidade que nos constitui, como nos lembra Christopher Bollas em seu livro “Sendo um
personagem” (1998):

(…) a ambigüidade que constitui o ser humano que experimenta-se tanto como o
que comanda sua vida quanto como o que é comandado. A dupla experiência com os
objetos, como veículos do desejo e como provocadores espontâneos de experiências
interiores, é um eco da índole da experiência do self, quando somos tanto iniciadores de
nossa existência como iniciados por ela. (Bollas, Sendo um personagem)

Segundo Bollas, o potencial dos objetos de evocar estados do self depende de sua
estrutura mesma. Uma manhã de sol, um estrondo, a visão de uma criança chorando, um
prédio, uma música, vão, pela própria estrutura de cada um ter um potencial diferente de
evocar estados do self. Penso que o filme por seu aparato técnico e pelo ritual que criamos
para assisti-lo tem um grande poder de nos fazer partícipes do mundo, do nosso pessoal e
interno, e do coletivo, daquela realidade que compartilhamos com os outros. Acredito que
essa, entre outras razões, é a que fez com que as salas de cinema continuem a existir,
diferentemente do que se pensou quando do boom dos aparelhos domésticos de reprodução
de filmes.

Temos necessidade de nos sentirmos pertencendo a uma ordem universal (Bollas,
1998), onde somos reconhecidos como semelhantes a outros seres e, ao mesmo tempo,
distintos em nossas singularidades. Criamos e buscamos objetos culturais que nos vinculem
ao nosso próprio tempo ou nos façam sentir parte de um espaço atemporal, um espaço
humano, que transcende mesmo a existência pessoal (Winnicott, 1975). Essa necessidade
tem sido expressa de muitas formas pela arte mas, no cinema, essas “marcas de nosso
encontro com o mundo dos objetos” (Bollas, 1998) ganham a possibilidade de serem
expressas com maior acuidade, talvez porque o cinema, como diz Susanne Langer (2003)
seja uma arte onívora, absorve todas as outras artes, combinando imagens fotográficas, sons,
música, falas, contando histórias. Um filme fornece alimento para nossos pensamentos e
nossos sonhos, de tal forma que só retrospectivamente podemos reconhecer. (Bollas, 2009).

As imagens dos filmes têm um poder evocativo muito poderoso, podendo provocar uma
experiência emocional de profunda identificação com emoções conscientes e inconscientes. E
parece que preferimos fazer isso em conjunto com outros seres humanos. Não será por isso
que vamos ao cinema?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, C. D. (1973). Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora.

BARTHES, R. (1984). Ao sair do cinema. In Psicanálise e Cinema. (Coletânea do nº 23 da Revista Communications). Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1984.

BOLLAS, C. (1998). Sendo um personagem. Rio de Janeiro: Revinter.

BOLLAS, C. (2009). The evocative object world. New York: Routledge.

LANGER, S. (2003). Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva.

LUZ, R. 1989). Cinema e Psicanálise: a experiência ilusória. In IDE, (17), 1989

LUZ, R. (1993). Olhar narcísico e visibilidade. In Percurso, (11) 1993

XAVIER, I. (2003). O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify

WINNICOTT, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago

[1] Tema livre apresentado no III Encontro Das Seções Regionais da SBPSP – Santos – agosto
de 2010