O mal- estar no mundo contemporâneo: o ser humano em crise?

Gley Marques da Silva

Temos acompanhado o declínio de uma cultura constituída por conceitos morais rigorosos, valores indiscutíveis, autoridades impostas, rigidez de normas com fortes aspectos de submissão, que parece estar sendo substituída por uma época que privilegia as diversidades, com maior liberdade de ter, ser e pensar.

A desconstrução de algumas formas de poder altamente controladoras – estado, família, religião – é vista por muitos, como decadência da “moral e dos bons costumes”, mas pode ser vista por tantos outros como uma possibilidade libertária, necessária à expansão.

“A sociedade pós-moderna se caracteriza por uma tendência global a reduzir as atitudes autoritárias e dirigistas e, ao mesmo tempo, aumentar a oportunidade de escolhas particulares, a privilegiar a diversidade e, atualmente a oferecer fórmulas de programas independentes…” (Lipovetsky, 2005)

Vivemos num tempo onde as opções que o indivíduo elege, instauram um ser humano ao mesmo tempo mais livre, porém mais carregado de responsabilidades; menos submisso, porém mais solicitado a se expor; com mais possibilidade de acesso ao prazer, no entanto com maior risco de se perder nas inúmeras solicitações dos bens de consumo.

Faço este preâmbulo, porque considero importante a noção de que é o uso que o ser humano faz deste novo que se apresenta, que pode mobilizar ganhos ou perdas dependendo da sua capacidade de pensar, discriminar, relativizar e tolerar a coexistência entre diferenças e contradições. Aqui se insere também o dia-a-dia do trabalho dos psicanalistas.

Nesta cultura contemporânea, mais aberta, pluralista e menos coercitiva, o leque de modelos e informações se multiplicou em escalas inimagináveis, mas trouxe algumas sequelas para a constituição do Eu, em busca da identidade – aquilo que torna cada ser humano, único. Grande parte do sofrimento psíquico está relacionada à fragilidade na constituição do eu, por vezes vulnerável e ameaçado frente ao “Outro”.

E quem é este “Outro” responsável pelas angústias e conflitos emocionais que atingem o indivíduo, abalando sua auto-estima e bem-estar, provocando sentimentos de desamparo? A sociedade, a realidade, as instituições, o parceiro?

Ao falar de mal-estar ou bem-estar estou me referindo à experiência emocional do indivíduo do nosso tempo, inserido nesta sociedade pós- moderna, que ao instituir como um de seus ícones, o hedonismo isto é, a dedicação ao prazer como estilo de vida e bem supremo, por vezes independente dos meios para obtê-lo, transformou muitas experiências naturais do ser humano – perdas, rupturas, mudanças, imperfeições – em circunstâncias intoleráveis.

João Marcello Bôscoli, músico e produtor musical, escreveu recentemente no caderno Cultura do jornal O Estado de São Paulo, um interessante artigo intitulado “A morte da voz humana”, onde manifesta a sua indignação com o auto-tune, um processador de áudio que  “corrige a afinação de cantores” à semelhança de um “photoshop (programa de computador destinado a gerar uma padrão estético perfeito) da voz”. João Marcello pontua: “o
estabelecimento de um padrão inatingível para o ser humano é algo desumano”. Ou como nos diz Ruy Castro, jornalista e escritor, ao comentar o referido artigo de Bôscoli, no jornal Folha de São Paulo: “Proibido não ser perfeito”.

Em busca de perfeição, o ser humano entra em crise, ao tentar se afastar da condição inerente à sua natureza: falível, portanto imperfeito.

Há uma pequena história que conta sobre um homem muito religioso que ao sentir-se diante de Deus pediu que lhe fosse indicado o caminho dos céus, sendo logo atendido. Já prosseguindo no caminho, por curiosidade, perguntou qual seria o caminho do inferno e para sua surpresa, ouviu: “O mesmo”.

A partir dessa história podemos pensar em crise como um único caminho que pode se abrir para algo enriquecedor ou para o infortúnio, dependendo de como opere o funcionamento mental da pessoa nela envolvida.

No dicionário Houaiss, algumas das acepções mostram esse possível paradoxo da palavra crise: o momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte (medicina); fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão, ou viceversa (economia).

Não há transição sem crise; o próprio desenvolvimento do ser humano está condicionado a esse percurso tanto que ao nos referirmos a certos ciclos da vida envolvendo transições mais significativas, comumente aparece a palavra crise: “crise da adolescência”, “crise da meia idade” e não há como evitá-las.

Há crises que nos são impostas pela própria condição humana, como estas últimas e há outras decorrentes de nossas singularidades, da história de vida de cada um.

Se viver é atravessar crises e se a angústia é um fator inerente a condição humana, por que o novo assusta e o diferente incomoda? Por que os psicanalistas se deparam
frequentemente, no seu cotidiano, com tais queixas?

Freud (1927) investigou amplamente as questões de recusa do sujeito, frente às reivindicações da realidade mostrando que, na tentativa de se desviar do sofrimento, a mente humana pode se utilizar de uma série de métodos “que começa com a neurose e culmina com a loucura, incluindo a intoxicação, o auto- enlevo e o êxtase”.

Há pessoas cuja atividade psíquica tenta, persistentemente e a qualquer preço, se afastar de experiências emocionais que provoquem desprazer, cujo aparelho mental não tolera um aumento de tensão. Se a mente não dispõe de uma capacidade para suportar e modificar o desconforto, frente às experiências de frustração, o aparelho de pensar, fica perturbado. Não estou falando de psicose ou esquizofrenia, mas de um tipo de funcionamento de mente que não é restrito à imaturidade do mundo infantil ou à impetuosidade da adolescência, e que vem se tornando muito comum no mundo adulto da atualidade.

Neste universo parecem faltar ao psiquismo uma densidade e profundidade de estruturas, capazes de sustentar a mente frente às inevitáveis vicissitudes da vida, tentando apaziguar a turbulência emocional com resoluções imediatistas – os atos impulsivos, ou resoluções alienantes – os atos compulsivos ou as transgressivas – violação da ordem ou da lei.

Muitas das patologias ditas do mundo contemporâneo ou para alguns psicanalistas as chamadas “patologias do vazio” – síndrome do pânico, drogadição, bulimia, anorexia e outras compulsões – se inserem nesta frágil construção psíquica marcada por uma intolerância que inviabiliza o pensamento, frente às experiências frustrantes.

Parece haver um vazio inesgotável, com tentativas de preenchê-lo buscando diferentes recursos para satisfazer todos os anseios, seguindo-se geralmente momentos de tédio pela não obtenção do prazer almejado, além da busca de um responsável – o Outro culpado – das suas insatisfações e desventuras.

“O inferno são os outros” escreveu Jean-Paul Sartre.

Marion Minerbo, psicanalista da SBPSP¹ , escreve: “o sujeito individual ou social atribuiu ao Outro o direito e a obrigação de zelar por sua felicidade, em lugar de assumir a responsabilidade por seu destino; em seguida, sentindo-se prejudicado, se ressente por esta (felicidade) não lhe ter sido dada. O ressentido se mantém ativamente nesta posição porque o ganho subjetivo é considerável: salva seu narcisismo, que poderia sair arranhado caso percebesse a sua covardia moral e a submissão que o levaram a ceder de seu desejo e de seu bem, sem ao menos lutar. Em lugar de se arrepender, acusa. Prefere ficar numa posição de dependência, porém protegida (ainda que prejudicado), a ser livre.”

A liberdade traz consigo a angústia frente à responsabilidade pelas escolhas e renúncias, um tanto de sofrimento e mal-estar; ela é inerente à condição humana e quando não encontra uma mente suficientemente continente para acolher e pensar sobre seus afetos,  o medo de sofrer pode afastar o indivíduo de apropriar-se de seus desejos e projetos.

O desconforto causado pela situação de crise vincula-se por vezes à ignorância – aqui com o sentido do “não saber” – frente ao novo que por ser desconhecido, pode tornar-se ameaçador. Porém esse não saber, quando suportado, pode se tornar um espaço potencial para a criatividade.

Em Winnicott (1971), a noção de criatividade tem a ver com um “viver criativo”, propiciado pela experiência de “se utilizar a personalidade de forma integral, preservar algo pessoal”. Portanto, a criatividade segundo esse autor, está relacionada ao sucesso na busca do Eu verdadeiro.

Ele faz também a diferença entre a experiência do viver criativo e a pessoa artisticamente criativa, afirmando que para tal experiência, não precisamos de nenhum talento artístico especial. (1970)

Tolerar a frustração com a nossa ignorância e falta de respostas, pode conduzir à criação de novos pensamentos e saberes. É assim que o progresso da humanidade tem ocorrido nos campos da arte, cultura e ciências. Mas para isso há necessidade de tolerar a espera.

Em 1930, ao publicar seu trabalho intitulado “O Mal Estar na Civilização”, Freud escreve:
“Existem certos homens que não contam com a admiração de seus contemporâneos, embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão”.

Há aqui uma constatação do Pai da Psicanálise, vivida na própria pele, pois ele, à sua época, também teve que enfrentar sérias dificuldades ao criar a nova ciência e seus fundamentos.

O desconforto dos momentos de crise não se restringe à pessoa que a vivencia; o grupo a sua volta também é influenciado e influencia, mas, os vínculos poderão sair fortalecidos e não apenas o indivíduo em questão, dependendo da forma que o grupo possa acolher e vivenciar essas relações interpessoais.

A crise tem uma força disruptiva, que é necessária para que novos e mais eficientes processos maturacionais possam ocorrer; sem ela o mundo pára, o ser humano fica estagnado. E um equivalente à imutabilidade é a morte.

¹Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOSCOLLI, J.M. (2010) A morte da voz humana: artigo publicado no caderno Cultura do jornal “O Estado de São Paulo”.

CASTRO, R. (2010) Proibido não ser perfeito: artigo publicado no jornal “Folha de São Paulo”.

FREUD, S. (1927) – O Humor. Ed. Standard Brasileira, Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol XXI.

FREUD, S. (1930) – O Mal Estar na Civilização. Ed. Standard Brasileira, Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol.XXI Lepovtsky, G. (1993) A Era do Vazio. Barueri, São Paulo: Manole, 2005.

MINERBO, M. (2009) Maria Rita Kehl: uma obra e sua pulsão. Resenha do livro O Tempo e o Cão – atualidade das depressões de Maria Rita Kehl. Revista Percurso, 43.

SARTRE, J.P (1944) “Entre quatro paredes” – peça teatral.

WINNICOTT, D. (1970) – Vivendo de modo criativo. In: Tudo Começa em Casa. São Paulo:
Martins Fontes Ed., 2005.

WINNICOTT, D. (1971) – O Brincar. In: O Brincar & a Realidade. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975.

[1] Tema livre apresentado no III Encontro Das Seções Regionais da SBPSP – Santos – agosto de 2010.