Falha ambiental grave na infância: algo a ver com sentimento crônico de falta e dependência química?

O ambiente facilitador e sua relação com o desenvolvimento emocional
Gley Marques da Silva

A função do holding ao propiciar um ambiente suficientemente bom no atendimento às necessidades básicas do bebê é de favorecer o amadurecimento emocional através desse suprimento egóico, podendo prevenir contra distúrbios futuros mais graves.

Saúde psíquica está associada à maturidade relativa à idade do indivíduo que segundo Winnicott, já traz em seu potencial herdado uma tendência a amadurecer. O ser humano necessita então, inicialmente, encontrar um ambiente facilitador que o auxilie no desenvolvimento desse potencial herdado através de uma adaptação às suas necessidades. Ou seja, é o ambiente que deve se adaptar ao bebê.

A princípio, a mãe tem um papel fundamental na maturidade emocional da criança, favorecendo o surgimento de um psiquismo saudável. Ou não. Cada ser humano é habitado, já a partir das relações iniciais, por objetos internos vigorosos ou frágeis, ternos ou cruéis,
confiantes ou vacilantes que configuram as “texturas psíquicas altamente condensadas, marcas de nossos encontros com o mundo dos objetos” (Bollas, 1998).

Em Winnicott, é grande a ênfase atribuída ao ambiente como o precursor do devir, do ser espontâneo e verdadeiro, cerne que habita cada indivíduo cujo potencial só emerge a partir do encontro com outro ser humano. Mãe suficientemente boa, preocupação materna primária, holding, handling são outros conceitos de Winnicott que se entrelaçam à questão do ambiente facilitador.

Principalmente nos primórdios da relação, quando a dupla mãe-bebê forma uma unidade, as falhas maternas despertarão experiências de angústias de aniquilação, uma ameaça à “continuidade do ser”. Nesta fase onde a mãe é sentida pelo bebê como parte dele mesmo, cabe ao ambiente cuidar para que as necessidades da criança sejam atendidas, o que acontece através daquilo que Winnicott (1956/2000) denominou de preocupação materna
primária.

Por ainda não existir “eu/não eu”, as falhas do ambiente são vividas como ameaça à própria sobrevivência, podendo promover sensações de desintegração, resultando em diferentes patologias. “A natureza do distúrbio está relacionada com o seu ponto de origem na linha do amadurecimento, isto é, com a natureza da tarefa com a qual o bebê ou a criança, estava envolvido por ocasião do fracasso ambiental”. (Dias, 2003)

Objeto transicional

Ao considerar os graus de dependência pelos quais o ser humano passa – da dependência extrema ao sentido social – Winnicott (1962/1983) propõe que falhas ambientais no período de dependência/independência podem predispor a criança à dependência patológica.

No momento em que ocorre uma transição entre a criança se sentir fundida à mãe mas, sentir-se também dela separada, dependência absoluta dependência relativa, Winnicott salienta a importância desta área intermediária. Nela, o bebê elege um objeto que lhe permite suportar esse início de separação: o objeto transicional, que é ao mesmo tempo parte dele próprio e parte da mãe. Portanto, o objeto transicional diferentemente do objeto interno, situase numa área entre o interno e externo, pertencendo a nenhuma e a ambas, sendo usado pela criança com o intuito de que ela possa se mover entre estas duas experiências. Trata-se de um objeto que assume enorme importância para o bebê “constituindo uma defesa contra a ansiedade, especialmente a ansiedade do tipo depressivo”. (Winnicott, 1951/1975)

Se este processo ocorre, tendo a criança suas necessidades atendidas pela presença da mãe suficientemente boa, o objeto transicional vai perdendo o sentido – de substituto dos componentes da maternagem -, podendo ser abandonado de forma gradual, fortalecendo o psiquismo infantil, preparando-o para lidar com perdas e frustrações. Mas nem sempre é o que acontece. É possível que a gênese de muitos dos distúrbios emocionais ligados à intolerância frente a situações de separação e perda, esteja associada ao modo como ocorreu a experiência de transição da dependência absoluta para a dependência relativa.

Nas condutas adictas, a dependência do objeto – droga – parece sinalizar uma perversão na área do objeto transicional, onde o sentido de uma experiência lúdica que abre o caminho para a criatividade e simbolização é substituído pela experiência de escravidão.

A droga, apesar de ser usada na tentativa de dar conta de estados de mente insuportáveis e ansiedades depressivas, não tem as características de um objeto que promove desenvolvimento; pelo contrário, conduz à submissão, podendo ser considerada como uma psicopatologia da área dos fenômenos transicionais. (McDougall, 1992)

A criança no adulto 

Ao observar o relato sobre a história familiar de alguns pacientes com condutas adictas, tenho encontrado, com frequência, ambientes desagregadores, desorganizados, onde a função principal deste primeiro grupo – a família – “cuja estrutura se relaciona com a estrutura da personalidade do indivíduo” (Winnicott, 1966/2005), foi de um holding que falhou, surgindo em seu lugar experiências traumáticas e intrusivas.

Muitos desses pacientes experimentaram na infância uma inversão de papéis, tendo que ou proteger figuras parentais frágeis ou proteger-se de figuras parentais violentas ou, então, desenvolver uma pseudomaturidade frente a pais infantis e/ou omissos.

Se entendemos por saúde psíquica um desenvolvimento emocional compatível à idade do indivíduo, estará tão doente a criança muito infantilizada quanto aquela que se apresenta precocemente madura. “O mundo adulto tem suas raízes na infância”¹ e se ela tiver sido espoliada de suas experiências naturais e vitais, no adulto futuro permanecerá a criança traumatizada, que de alguma forma denunciará sua presença.

Mas estes pacientes viriam em busca de quê?

Sem dúvida, de alívio para suas dores e sofrimentos, mas será que também não há a esperança do encontro de um novo ambiente – representado pelo setting analítico e aquilo que o compõe, basicamente a figura do analista – que torne possível a readaptação e adequação das falhas ambientais anteriormente ocorridas?

Ao abordar o tema da delinquência, Winnicott (1956/1994) apresenta tal comportamento como um S.O.S. ao ambiente e a esperança de que se apresente uma força maior proveniente do exterior, que dê conta da incapacidade do indivíduo de se conter, capacidade esta não desenvolvida pela ausência de segurança frente a um ambiente familiar que, possivelmente, falhou anteriormente.

Estes pacientes geralmente se apresentam com um mundo intrapsíquico inundado de caos, falhas, necessitados de uma análise que possa re-significar experiências relacionais ou dar significado a outras talvez ainda não vividas.

A excitação produzida pela droga é vista como uma saída para momentaneamente sentir-se vivo, evitar a depressão, a sensação de vazio e de uma vida onde falta sentido, mascarando com defesas onipotentes e maníacas, uma profunda desolação.

Parafraseando Clare Winnicott² “já estavam em dificuldades em seus lares antes das drogas”.

As experiências adictas não se limitam ao uso de drogas: seus relacionamentos amorosos têm características semelhantes buscando no parceiro, geralmente idealizado, um objeto capaz de conter as angústias vividas como insuportáveis ou de experienciar a ilusão de um self integrado.

Muitos desses relacionamentos, em seus inícios quando ainda idealizados, parecem ser substitutivos funcionais da droga e têm o poder de, temporariamente, diminuir seu uso e os actings que, no entanto, retornam tão logo iniciem as primeiras dificuldades. Seria a fantasia do encontro do objeto/ambiente suficientemente bom capaz de atender suas necessidades?

Do objeto que ainda não se tornou não eu “pedaço de mim que me foi arrancado” – como me diz um paciente após a separação da namorada?

As separações são quase sempre vividas como uma catástrofe, remetendo-os àquela terrível sensação de vazio e desamparo, predispondo-os ao consumo maior de drogas.

A incapacidade de contenção responsável pelos acting outs freqüentes destes pacientes, possivelmente surja não só como expressão de descarga de estados mentais vividos como insuportáveis, mas podendo também ser compreendida como um apelo ao ambiente, para que entre em ação um objeto capaz de oferecer holding a um self em que falta coesão.

Não quero incorrer em perigosas generalizações, nem tomo alguns poucos exemplos da clínica para explicar o todo de um tema tão complexo que envolve diferentes fatores na etiologia, inclusive os constitucionais. Tento apenas ilustrar com alguns casos clínicos, uma reflexão que venho fazendo sobre a equação uso de drogas e falhas importantes do ambiente familiar, na infância destes e de outros pacientes que atendi.

Um pouco da clínica

I – Guilherme me conta que quando seus pais se separaram depois de muitas brigas, o pai por ter muito poder no local onde viviam, se encarregou de dar sumiço na mãe, expulsando-a da cidade e impedindo, durante muito tempo, qualquer aproximação dela com os filhos. Um dia ele acordou e lhe foi dito:

_ “Sua mãe não mora mais aqui.”

Nessa época ele tinha 6 anos e teve que se sujeitar a um pai violento que lhe dava surras pelo simples fato de mencionar o desejo de estar com a mãe.

II – Os pais de Patrícia se separaram quando ela tinha 4 anos. A mãe chegou a apanhar do pai mais de uma vez até que ele saiu de casa para viver com outra mulher com quem já tinha outro filho. Nessa época a mãe de Patrícia entrou em profunda depressão e ela se recorda com tristeza e raiva como tentava animar a mãe que não queria sair da cama e cuidar do irmão mais novo que tinha dois anos.

Os eventuais encontros com o pai, nos fins de semana, se constituíam em programas com as namoradas que ele arranjava, pois o segundo relacionamento também pouco durou.
Um dia mexendo no bolso da calça do pai em busca de moedas encontrou um pacotinho “com um pó branco”. Tomou “uma enorme bronca do pai” e somente tempos depois é que entendeu com a “ajuda do namorado” do que se tratava.

III – Marcelo, ao perder o pai quando tinha 12 anos, foi cuidado pela empregada da casa.
Com 2 anos, sua mãe abandonara a família para viver com outro homem com quem teve outros filhos. Numa das últimas visitas que ela fez, pois após o segundo casamento não mais procurou por ele nem pela irmã, Marcelo atravessou uma porta de vidro para ir atrás dela.

Cada paciente é um ser único, singular e diferenciado nas suas características, despertando no analista, diferentes estados contratransferenciais. Mas o que pode ser visto de comum nestes três casos?

O que neles se destaca é uma estrutura do tipo borderline onde prevalece uma ansiedade ligada ao vazio e à falta e sentido. Armony (1998) ao falar sobre a insuficiência  das identificações no borderline, o descreve como aquele que “carrega como memória da infância uma fome de identificações; fome semelhante à da criança que necessita de se
identificar com adultos significativos para fabricar sua identidade”. E Ahumada (1999) que vê as adições sustentando “de modo contínuo os mecanismos onipotentes de identificação defeituosa e negação maníaca onde atuando e negando ao mesmo tempo as dependências primitivas não elaboradas, parece assentar-se a personalidade de base, na cultura da gratificação peremptória”.

Estes pacientes, frente à frustração, sentem-se remetidos a uma sensação de desamparo e de exclusão que muitas vezes os leva a reações de alto risco, quase sempre recorrendo à droga para mascarar a dor sentida como insuportável.

Quanto às relações afetivas, tendem a estabelecer vínculos simbióticos, idealizados, com grandes e rápidas oscilações entre o bom e mau. Se num determinado momento o objeto amoroso é imprescindível, no momento seguinte é seu pior inimigo responsável por tudo de ruim que lhe acontece. Fazem equações simplistas – é meu amigo quem concorda comigo, é meu inimigo quem discorda – tendo como corolário grandes paixões e intensos ódios.

Inevitavelmente, a relação analítica fica colorida com todas estas nuances e o trabalho é sempre muito difícil, instável, potencializado por actings out e actings in.

Na transferência, o analista pode num momento ocupar o lugar de funções parentais buscadas e que falharam e no momento seguinte, o de objeto mágico que como a droga o afasta dos sofrimentos e o conduz a um estado de permanente prazer.

A dificuldade de poder estabelecer uma relação de intimidade onde não se configure uma dependência mortífera leva muitos destes pacientes a temer o vínculo analítico, equacionado à conduta adicta. Para esses pacientes, “o que se estabelece é um pacto de morte, numa transação marcada pela alienação da vida do sujeito no outro, por meio de um objeto ambíguo de satisfação/mortificação”. (Birman, 2005)

Impossibilitado que o paciente está de estabelecer uma relação que não seja de dependência quase absoluta, desejar o objeto é ter que a ele se submeter. É neste objeto que espera encontrar as funções para lidar com as experiências emocionais que não consegue suportar. Embora depender seja diferente de precisar, para estes pacientes parece não existir tal discriminação e o receio é de que ali, na relação analítica, se instaure outra experiência de escravidão.

Guilherme, Patrícia e Marcelo usam cocaína, maconha e por vezes abusam do álcool. Todos trazem como queixa inicial, o rompimento de relações amorosas onde vivem estados de muito tumulto, provavelmente semelhantes às relações iniciais também turbulentas das suas infâncias.

Chama atenção na história destes pacientes, uma vida marcada por rupturas e perdas significativas, vividas de forma violenta, em época precoce, dentro do ambiente familiar.

A clínica contemporânea nos confronta com um número cada vez maior de pacientes onde é presente o não sentir-se real, sensação de tédio e vazio, fragilidades intensas que buscam se apoiar em relações de submissão, sugerindo problemas sérios na construção da identidade. 

Creio que através dos processos de transferência e contratransferência, o analista poderá ter um balizador que lhe permita incluir adaptações em sua clínica, de forma a atender necessidades do paciente. Trata-se de um trabalho sutil e meticuloso, que demanda constantes reflexões a fim de que se evitem conluios e armadilhas que possam colocar em risco o trabalho analítico, diferenciando-se atender desejo de atender necessidade.

Embora sejam cada vez mais frequentes na clínica, pacientes envolvidos com o consumo de drogas, auxiliá-los no desenvolvimento de sua estrutura e funcionamento psíquicos requer grandes esforços frente a também grandes dificuldades e limites do psicanalista.

Isto posto, creio que nos faz questionar a prática psicanalítica da nossa clínica, onde recebemos cada vez mais pacientes com graves perturbações na sua constituição psíquica, exigindo do psicanalista “transformações de si dentro dos consultórios que devem se exercer, mais do que nunca, como invenção de liberdade dentro da legalidade.” (Izhaki, 2007)

A partir daí talvez surja a possibilidade de que em algum momento estes pacientes consigam renunciar ao “vício pela quase – morte”? ³

 

 ¹Nosso mundo adulto e suas raízes na infância”. Nome do trabalho de M. Klein ( 1959).

²“Já estavam em dificuldades em seus lares, antes da guerra”. Winnicott, D. W. (1994) Introdução por Clare
Winnicott. In: Privação e delinqüência. São Paulo: Martins Fontes.

³O vício pela quase morte”. Nome do trabalho de Betty Joseph (1982).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAM, J. (2000) A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter. Ltda.

AHUMADA, J. L. (1999) Crise da cultura e crise da Psicanálise. In: Descobertas e Refutações: a lógica do método psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago Editora.

ARMONY, N. (1998) Estudando identificações e identificação. In: Borderline: uma outra normalidade. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter Ltda.

BIRMAN, J. (2005) Feitiço e feiticeiro no pacto com o diabo. A Psicanálise e a questão das toxicomanias. In: Mal estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação.
Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. (Conferência proferida em 1986)

BOLLAS, C. (1998) Sendo um personagem. In: Sendo um personagem. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter Ltda.

DIAS, E.O. (2003) A teoria do amadurecimento pessoal. In: A teoria do amadurecimento pessoal de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago Editora.

IZHAKI, F.(2007) Meio ambiente e self em Winnicott: uma leitura relacional. In: Winnicott e seus interlocutores. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

MCDOUGALL, J. (1992) O teatro transicional e a busca de personagens. In: Teatros do Eu. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S/A.

WINNICOTT, D. W. (1975) Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora. (Trabalho publicado originalmente em 1951.)

WINNICOTT, D. W. (1983) Provisão para a criança na saúde e na crise. In: O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho publicado originalmente em 1962.)

WINNICOTT, D. W. (1994) A tendência anti-social. In: Privação e delinqüência. São Paulo: Martins Fontes. (Conferência proferida em 1956)

WINNICOTT, D. W. (2000) A preocupação materna primária. In: Da Pediatria à Psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho publicado originalmente em 1956)

WINNICOTT, D. W. (2005) A criança no grupo familiar. In: Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes. (Palestra proferida em 1966.)

Tema livre apresentado no XVII Encontro Latino – americano sobre o Pensamento de D.W. Winnicott – Ressonâncias – SP – 2008.