Considerações sobre o ódio na contratransferência¹

Vera Lucia Blank Gonçalves

 Ressalto nesse trabalho como a percepção dos sentimentos de ódio na relação contratransferencial foram importantes no trabalho com uma paciente, buscando apontar o aspecto de continência do analista, ou até do paciente com ele mesmo.

Diz Winnicott: “O paciente borderline atravessa gradativamente as barreiras que denominei de técnica do analista e atitude profissional,forçando um relacionamento direto de tipo primitivo, chegando até o limite da fusão.”

E o analista então precisa ter uma condição interna muito especial, uma continência para suportar essa fusão com o paciente, suportar que o paciente passe por um colapso, pela fase de extrema dependência mesmo do analista, criando assim um verdadeiro paradoxo –a situação clínica em que o analista deve permanecer vulnerável, mas ainda assim retendo o papel profissional.

“O paciente deprimido requer de seu analista a compreensão de que o trabalho do analista é, até certo ponto, seu esforço para agüentar sua própria depressão”. Continua Winnicott: “O paciente que pede ajuda, devido à sua relação primitiva e pré-depressiva com os objetos, necessita que seu analista seja capaz de ver amor e ódio não deslocados e coincidentes do analista por ele.”

Dessa forma, o término da sessão, aviso de férias, alterações do número de sessões, ou colocações do analista com dados na realidade são vividos como expressão do ódio do analista por ele, paciente.”O analista deve tolerar que o ponham nessa posição, não deve negar o ódio que realmente existe dentro de si, disponível e guardado para uma interpretação no momento possível”. Recorro a um relato clínico para a compreensão da continência analítica nessa situação: a paciente A, vários anos em análise, pede mudança de horário. Tem dificuldade nos horários, vem bem cedo às 7,45h, na segunda e na quinta-feira (anteriormente vinha quatro sessões). E também está em atraso com os pagamentos.

-É uma situação constrangedora,eu não posso pagar você e ainda preciso mudar os horários! Com essa fala acredito que demonstra a compreensão da situação e penso que se encontra naquele momento em posição depressiva.Vemos as possibilidades e a única possível – por impedimentos dela – é um horário inconveniente para mim. Como não encontrávamos outra alternativa, concordo com a sua e ela sabe que eu estava abrindo uma exceção a ela. Ficamos depois desses acertos em silêncio, fato muito comum em sua análise – longos silêncios nos momentos de muita angústia, alterações de humor, sofre de uma depressão crônica. Sinto seu silêncio como amistoso, reconhecendo meu afeto por ela.Digo-lhe então que apesar das dificuldades, de ambos os lados, percebo a vontade que nós duas temos de estarmos juntas. Essa colocação minha é ouvida sem nenhum comentário dela.

Eu havia assistido um Seminário sobre Transtornos Alimentares e o médico palestrante, falando sobre obesidade, dizia que o paciente obeso precisa tomar sempre o anti-depressivo – por toda a vida. Quando ouvi essa colocação me lembrei dela – durante todo o tempo luta para não depender da medicação: toma durante um tempo, melhora, interrompe; de novo entra em depressão. Sua mãe era esquizofrênica, com várias internações, tem uma irmã e um irmão também bastante comprometidos. Lembrei-me disso naquele instante, e como o clima estava afetuoso, digo-lhe que me lembrara dela durante o evento sobre obesidade.

-“Estou tão gorda assim?” Brinca e rimos.

– Não, respondo, mas fiz uma associação com você quando o médico enfatizou a necessidade de tomar sempre o anti-depressivo. É uma realidade que precisa ser encarada. E que talvez sirva para você também…

Eu não tinha idéia do que viria em seguida…Na sessão seguinte, assim que entra:

– Acordei às 5h da manhã e não consegui dormir mais, pensando nas coisas que você disse na última sessão.Foram absurdas! Você foi completamente inadequada, aquela historinha que contou do seminário sobre obesidade, que lembrou de mim, nada a ver! Você tirou aquilo não sei de onde! As coisas que me disse! Pensei que você está me descartando…dizendo: você não tem cura, não tem jeito! Senti seu ódio por mim!

Essa fala foi bastante agressiva, situação habitual nela, e ela estava com muita raiva.Eu, tomada de surpresa, tento me explicar, mas percebo que era inútil naquele momento. Ela então se cala.

Depois de um tempo em silêncio eu digo:

– Você disse que perdeu o sono, não dormiu mais, deve ter muitas outras coisas para falar… Por que parou?

– Porque você repetiu tudo de novo! Penso que é igual ao que meu pai e minha mãe diziam, eles exigiam muito de mim. Eu tinha sempre que dar o melhor! Nunca estava bom! Ou igual ao X, que me enrolou anos… Você também me enrolou esses anos, eu venho aqui e você fica me “levantando!” (Esqueceu o quanto está mais leve, o que tem progredido, o quanto já lida melhor com suas angústias, as lágrimas que já não caem mais, as risadas que consegue dar, eu penso).

– Parece que v. está numa situação em que não há espaço para dúvidas! Esse pensamento passou pela sua cabeça e virou uma verdade.Será que eu também estou exigindo coisas difíceis de você, ou pode ser que eu esteja apontando uma realidade dura de aceitar, quando eu lhe disse sobre tomar a medicação. Você ficou com muito ódio de mim, eu digo.

– Fiquei sim, mas não preciso disfarçar o meu ódio por você. Já senti muitas vezes! Não preciso esconder. Não estou nem aí se percebeu. É problema seu o que você vai fazer com isso!

Lágrimas escorrem. A sessão termina.

Fico pensando, dias depois, sobre o ódio do analista: a questão do pagamento das sessões, sempre fico por último na lista das suas dívidas. Sou sempre a generosa, a que a carrega no colo, a que levanta seu astral quando vem deprimida, queixosa…teria ela sentido o que eu não sentira? O meu ódio? Fico realista a esse respeito, sinto que isso me incomoda sim. Relembro Winnicott quando diz que o paciente quer ser odiado, provocando o ódio do analista (latente). O analista tem de tolerar que o ponham nessa posição. Para isso tem que haver objetividade para tudo que o paciente traga.E também a continência do analista com ele mesmo, estando preparado para suportar tensão, sem esperar que o paciente se dê conta do que ele está fazendo, por um longo tempo.”O bebê precisa do ódio para odiar”, diz Winnicott.

Na sessão seguinte, chega atrasada 15m.

– Eu vinha para cá e estava pensando que não estava me sentindo mal pelas duas últimas sessões. Coisa inédita! Sempre fico me culpando! Não estou mais assim.Estou bem. Se você não confessou o seu ódio por mim, não fiquei pensando: será que sou eu? Fui eu? Não me importo! Assim como com a B (colega de trabalho), ela me tripudia: eu não esquento mais. O X teve a pachorra de me ligar ontem no meu celular: – E ai, aquela grana que v. me deve?! Respondi:- Eu não vou pagar! Não fiquei triste nem angustiada… Depois dessa fala fica em silêncio, olhando o quadro na parede, em cima do divã.

– E aí? Murmuro baixinho. Nada mais?

– Não estou querendo mais vir aqui, diz com raiva. Estou odiando falar com você. Não engoli aquela sessão sua – aquela pisada de bola que v. deu, de me mandar para o psiquiatra, das colocações que fez, de limitação de tempo e dinheiro, das duas sessões por semana! Não venha me dizer que aquilo é paranóia da minha cabeça! Eu senti!

– E porque vem então? pergunto. Se tudo o que eu digo é escutado como ataque, como diz, se estou querendo me livrar de você, se acho você um caso perdido…(Nesse momento, sinto que estou sendo verdadeira, e tendo uma reação às agressões dela).

– O que você está querendo dizer com isso? Diz muito agressiva, interrompendo-me.

– Não quero dizer nada além do que estou dizendo… Indicar medicação não é querer me descartar de você. Teria outras maneiras, não acha?É uma constatação de uma necessidade. Que você pode seguir ou não – não é uma ordem! Quanto à limitação de tempo é uma realidade. Ou você não percebeu a diferença entre as quatro sessões que tínhamos antes e agora? Estamos lidando com realidade, com o possível, não com o desejável!

– Mas foi você quem propôs!

– Tem razão, e eu estou percebendo que certas propostas às vezes não dão certo. A minha intenção foi que você não interrompesse um processo, longo, difícil. É o que está sendo possível. Mas percebo que não é suficiente…

– O que você está querendo dizer agora? Grita, nervosa. – Não estou “querendo dizer” digo mansamente – estou dizendo que percebo nossas limitações. Você quer muito brigar comigo, só que eu não quero brigar com você!

Ai se recolhe num silêncio longo, até o fim da sessão. Põe os braços em cima da cabeça, fico sem ver seu rosto, de vez em quando assoa o nariz, parece-me que chora.

Sessão seguinte. Chega faltando 15m para terminar a sessão. Ao entrar explica-se:

– Atrasei porque lá no Serviço de Atendimento, bem na hora de sair, uma criança teve uma ausência, um problema neurológico, e aí precisei ficar…

E fica em silêncio durante alguns minutos.Depois de um tempinho, vira a cabeça na minha direção e fala:

– Estou ainda pensando no último atendimento…

– Atendimento? Lá no seu trabalho?

– Não, aqui, nosso último atendimento… quer dizer… (percebe o ato falho)

– Na última sessão,corrijo, parece que aqui também teve uma paciente com “ausência”, não é?

Fica muito parada. Aí diz:

-Eu estou pensando se não fiz com você exatamente o que minha irmã fez comigo a vida toda, que nunca reconheceu nada – nunca – do que eu fiz por ela. Acho que fiz igual com você…

Diz Winnicott que um analista tem que exibir toda a paciência, a tolerância e a confiança de uma mãe devotada a seu bebê; tem que reconhecer nos desejos do paciente, necessidades.(grifos meus).

Sessão seguinte:

– É a primeira vez que não me sinto bem-vinda aqui.

– E o que você fez para se sentir assim?

Não responde. Depois de um tempo:

– Eu já fiz tantas aqui, já saí antes do final da sessão, já sai sem dizer até logo, já fiquei sem falar com você, já dormi na sessão, mas como dessa vez nunca.Tem uma linha separando o lado normal do lado angustiado; eu sempre esperei superar essa linha. Passar para o lado de lá. Subir um degrau… (no desenvolvimento). Agora percebo que não dá para subir, é um esforço que eu não dou conta… É um peso de viver, que não me larga. Um sentimento de impotência: não tem nada a ver com os outros, é comigo; não tem a ver com o X, nem com grana, nem com a profissão, tem a ver comigo, com essa linha intransponível…

Chora.Nesse momento está começando a ser continente aos seus sentimentos, percebo um movimento de arrependimento em relação às últimas sessões comigo. Dá-se conta de que é com ela. Viver é pesado.Está preocupada com a nossa relação, de ter provocado algum estrago…e por isso ser punida, não sendo bem-vinda…

Sessão seguinte: deita-se e fica em silêncio. Não interrompo.

-Sinto que tirei várias camadas de cima de mim, como cascas que foram saindo…mas que cheguei em um ponto que não dá para tirar mais. É algo muito ruim que é meu, e que eu não posso me livrar. Não posso dizer que é o meu trabalho, ou meu casamento, nem meus filhos, sou eu. Tenho que viver com isso (lágrimas de dor escorrem).Eu sempre pensei que a análise me possibilitasse um dia a atravessar a linha divisória, e que eu estava quase lá, tantas coisas eu já fui tirando de mim. Mas agora desisti, nunca vou passar essa linha!

Digo-lhe que talvez esse momento seja também uma possibilidade de encontrar um núcleo de dor, que tantos movimentos fez para evitar, para não sentir, para não entrar em contato. Que dor é essa?

– Consegui dizer à minha tia que a minha mãe(já falecida) era uma pessoa muito comprometida, e que judiou muito de todos nós (a tia dissera que eles – seus filhos- nunca trataram bem dessa mãe).Minha prima disse que eu fiz muito bem de dizer isso, que ela teve uma experiência de ficar uns dias na nossa casa e que não agüentou a minha mãe gritando, brigando com todo mundo… A minha mãe era muito comprometida…Fica um pouco em silêncio, lágrimas escorrem e aí diz com muita raiva (que nunca pode antes aparecer):

-Eu queria poder ir lá no túmulo da minha mãe, bater nos ossinhos, quebrar tudo, arrebentar aquilo tudo de tanta raiva que sinto por todas as coisas que ela me fez…

Por não poder tolerar o ódio nela, projetava-o em mim. Pode finalmente expressar o verdadeiro ódio, aqueles sentimentos que estavam camuflados, que durante tantos anos não ousou entrar em contato.

Segundo Winnicott, “a criança normal experimenta uma relação cruel com a mãe, mais evidente nos jogos, e necessita da mãe, porque só dela pode esperar uma tolerância. Sem esta possibilidade de brincar cruelmente com ela, não resta à criança outra saída senão ocultar esse self, cruel, deixando-o vir à tona apenas em um estado de dissociação.”

No texto “A reparação em função da defesa materna organizada contra a depressão” Winnicott entende a reparação como uma raiz da criatividade, um dos mais importantes passos para o desenvolvimento de um ser saudável. Na clínica temos a reparação falsa, que não se relaciona com a culpa do paciente, mas aparece através da identificação do paciente com a mãe, e o fator dominante não é a culpa do paciente, mas sim a defesa organizada da mãe contra a depressão e a culpa inconsciente. “A depressão da criança pode ser um reflexo da depressão da mãe. Lidar com uma mãe depressiva é uma tarefa difícil de ser cumprida e pode ser explorada pelo indivíduo como fuga da aceitação da responsabilidade pessoal”.

Ser para ela a mãe viva, ajudando-a a substituir esse modelo identificatório por outro mais saudável, é ter continência.

Diz Winnicott: “Quando na análise o paciente tem a chance de chegar à culpa pessoal, o humor do pai ou da mãe está lá para ser trabalhado também”.

Para haver uma psique-soma saudável, tem que existir um meio ambiente saudável. As perturbações psicossomáticas estão no limiar entre o mental e o físico.A visão da psicose para Winnicott é de uma doença de deficiência ambiental. Em reação a um estado anormal de meio-ambiente, o pensamento do indivíduo começa a controlar e organizar os cuidados a serem dispensados ao psique-soma, ao passo que na saúde isso é uma função do meio ambiente.

Resultantes mais comuns de uma falha na maternagem (mães tantatizantes), o funcionamento mental torna-se uma coisa em si, praticamente substituindo a mãe boa e tornando-a desnecessária. O resultado é mente-psique: a cisão entre o psique e o soma, que é patológica.

O paciente grita a sua dor e o analista tem que estar lá, com sua rêverie, para poder ouvilo e assim poder sonhar seus sonhos interrompidos…

– Será que minha mãe sabia de mim? (paciente A), cuja mãe esquizofrênica não estava disponível para ela.

– A dor é dentro! Grita outra paciente, que nunca pode externalizar a sua dor, não havia uma mãe para ouvi-la. Essa paciente se sente deprimida pelo estrago que fez em sua família; mas relata que nunca pode contar com sua mãe, que sofre de uma depressão muito maior que a dela. Agora ela, identificada com a mãe, se diz “culpada” da doença materna: “ Eu estou acabando com ela.”

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

WINNICOTT, D.W. (1978) Textos Selecionados – Da Pediatria à Psicanálise, Editora Francisco Alves:

Cap. 15 – O Ódio na contratransferência (1947)

Cap.7 – A reparação em função da defesa materna organizada contra a depressão (1948)

Cap. 19 – A mente e a sua relação com o psique-soma (1949) [1] Tema livre apresentado no XVII Encontro Latino – americano sobre o Pensamento de D.W. Winnicott – Ressonâncias – SP – 2008.

[1] Tema livre apresentado no XVII Encontro Latino – americano sobre o Pensamento de D.W.Winnicott – Ressonâncias – SP – 2008.