2011 - 2º Semestre

Verão de 42 (EUA 1971)

Filme do dia 14 de setembro de 2011.

Comentários de André Azenha e Regina Helena Coelho Levy

Tema do Semestre: O adolescente: uma metamorfose ambulante

¨Nossos adolescentes atuais parecem amar o luxo. Tem maus modos e desprezam a
autoridade. São desrespeitosos com os adultos e passam o tempo vagando pelas
praças…São propensos a ofender seus pais, monopolizam a conversa quando estão em
companhia de outras pessoas mais velhas; comem com voracidade e tiranizam seus
mestres¨. Sócrates (século V a.C.)
¨Não vejo esperança para o futuro de nosso povo se ele depender da frívola mocidade
de hoje, pois todos os jovens são, por certo, indizivelmente frívolos…Quando eu era menino,
ensinavam-nos a ser discretos e a respeitar os mais velhos, mas os moços de hoje são
excessivamente sabidos e não toleram restrições¨. Hesíodo (século VIII a.C.)
Parece que algumas questões que envolvem a adolescência são universais e
atemporais, vamos então tentar trazer alguns elementos em comum entre os adolescentes de
42 e os de hoje, e algumas características próprias da atualidade.
A palavra adolescência tem uma dupla origem etimológica que caracteriza muito
bem as peculiaridades desta etapa da vida. Ela vem do latim ad (a, para) e olescer (crescer),
significando o indivíduo apto a crescer. Adolescência também deriva de adolescer, em latim
adolescere, que significa adoecer, enfermar. Temos assim, nesta dupla origem etimológica,
um elemento para pensar esta etapa da vida: aptidão para crescer (não apenas no sentido
físico, mas também psíquico) e para adoecer (em termos de sofrimento emocional, com
as transformações biológicas e mentais que operam nesta faixa de vida).
Para ajudar na compreensão, vamos fazer uma distinção entre adolescência e
puberdade. A puberdade é um processo biológico que se inicia, em nosso meio entre 9 e
14 anos aproximadamente e se caracteriza pelo surgimento de uma atividade hormonal que
desencadeia os chamados ¨caracteres sexuais secundários¨, na menina representado
pelo desenvolvimento dos seios, do pêlo pubiano e entre este e o pelo axilar, geralmente se
instala a menstruação; e o menino que inicia pelo pêlo pubiano, e uma vez que tenha
começado a aumentar o tamanho dos órgãos genitais, logo aparece o pêlo axilar e finalmente
o facial. A adolescência é basicamente um fenômeno psicológico e social. Assim, sendo
um processo psicossocial, a adolescência terá diferentes peculiaridades conforme o
ambiente social, econômico, cultural e o momento histórico em que o adolescente se
desenvolve. Ela também tem diferentes fases com características muito particulares.
Aqui vamos considerar a adolescência como composta de 3 etapas, de início e fim não
muito precisos, em que algumas características se confundem e outras não, e flutuações
progressivas e regressivas se sucedem, alternam-se ou executam um movimento de¨ vai e
vem ¨ (como o barulho no filme das ondas do mar):
 A adolescência inicial (de 10 a 14 anos) é caracterizada basicamente, pelas
transformações corporais e alterações psíquicas derivadas destes acontecimentos.
 A adolescência média (de 14 a 16 ou 17 anos) tem como seu elemento central as
questões relacionadas á sexualidade, em especial, a passagem da bissexualidade
para a heterossexualidade (o momento do nosso filme).
 A adolescência final (de 16 ou 17 anos a 20 anos) tem vários acontecimentos
importantes, entre os quais o estabelecimento de novos vínculos com os pais, a
questão profissional, a aceitação do ¨novo¨ corpo e dos processos psíquicos do
¨mundo adulto¨.
Segundo o psicanalista gaúcho Luiz Carlos Osório, em seu livro Adolescência Hoje,
caracteriza da seguinte forma a adolescência:
1. Redefinição da imagem corporal, vivida através da perda do corpo infantil e da
consequente aquisição do corpo adulto (em particular, dos caracteres sexuais
secundários);
2. Culminação do processo de separação/individuação e substituição do vínculo de
dependência simbiótica com os pais da infância por relações objetais de autonomia
plena;
3. Elaboração de lutos referentes à perda da condição infantil;
4. Estabelecimento de uma escala de valores ou código de ética próprio;
5. Busca de pauta de identificação no grupo de iguais;
6. Estabelecimento de um padrão de luta/fuga no relacionamento com a geração
precedente;
7. Aceitação tácita dos ritos de iniciação como condição de ingresso ao status adulto
(casamento, trabalho)
8. Assunção de funções ou papéis sexuais, consoante com inclinações pessoais
independente das expectativas familiares e eventualmente, até mesmo das
imposições biológicas do gênero a que pertence.
Nossos personagens do filme, com idades por volta de 15 anos parecem estar no
centro de todas estas questões. Vivem o incremento hormonal, as modificações
biológicas, o crescimento corporal, a intensidade dos impulsos, como um fenômeno
muito estranho e assustador.
Mas será que é possível evitar as turbulências na adolescência?
Segundo a nossa visão não, porque elas são sinais exteriores que nos indicam que
uma série de ajustes internos estão iniciando. Por outro lado, existem jovens de 15 ou 16
anos que não mostram sinais de inquietude, continuam sendo aqueles filhos bons, que só
mantém vínculos no âmbito familiar, conformados com as idéias da infância. Apesar desta
aparente conveniência, isto pode significar um atraso no desenvolvimento normal, esta
renúncia a crescer, pode representar que este jovem usa defesas excessivas contra seus
instintos, que acabam atuando como barreiras que detém os processos maturacionais
normais.
É normal que um adolescente se comporte durante um bom tempo de maneira
incoerente e imprevisível, que se oponha a seus impulsos e que os aceite; que tente evita-los
e que se sinta invadido por eles; que ame seus pais e que os odeie; que se rebele contra eles
e que dependa deles; que se sinta envergonhado de reconhecer sua mãe diante de outros e
que inesperadamente, deseje de todo coração falar com ela; que cresça com a imitação e
identificação com os outros, enquanto busca sem descanso sua própria identidade; que seja
idealista, amante da arte, generoso e desinteressado como nunca voltará a ser, mas que
também seja ao contrário, egocêntrico, egoísta e calculista. Estas flutuações entre
extremos opostos seriam altamente anormais em qualquer outra época da vida, mas neste
momento significam simplesmente que é necessário um bom tempo para que surja a estrutura
adulta de personalidade, que o adolescente tem que experimentar, ao invés de fechar-se
prematuramente a novas possibilidades, pois só assim, ele poderá elaborar suas
próprias soluções. Embora aos olhos do observador essas soluções temporárias pareçam
anormais, elas o são em menor escala do que decisões precipitadas por supressão unilateral,
rebeldia, fuga, retraimento, regressão, essas sim podem ser responsáveis por um
desenvolvimento patológico.
Quanto ao final da puberdade e adolescência, ele conclui: que a puberdade estaria
concluída, por volta de 18 anos e com ela o crescimento físico e o amadurecimento
gonadal (que permite a plena execução das funções reprodutivas) coincidindo com o fim
do crescimento esquelético (soldadura das cartilagens dos ossos grandes).
O término da adolescência, a exemplo do seu início, é bem mais difícil de determinar
e novamente obedece uma série de fatores de natureza sócio-cultural. Em termos etários,
isto ocorreria por volta dos 25 anos anos na classe média brasileira, com variações
consoante com as condições sócio-econômicas da família de origem do adolescente.
Aqui se faz necessário assinalar a transformação fundamental pela qual estamos
passando no que concernem as ditas idades da vida. A temporalidade da juventude se
alterou de forma significativa, a infância como etapa psíquica e sociologicamente
discriminada, estaria em franco processo de desaparecimento e de dissolução, enquanto
que hoje há um alongamento da adolescência que começa mais cedo e se prolonga
bastante, no campo que se denominava antigamente de idade adulta. Isto ocorre porque as
etapas da vida não obedecem só o processo biológico, mas ocorrem dentro de um
contexto histórico, construído em correlação com a família e a sociedade.
A que atribuir esta mudança significativa?
As exigências de performance impostas ás crianças hoje, são maiores agora do
que outrora, principalmente no que se refere a multiplicidade de atividades ligadas a
educação e ao aprendizado. Neste contexto, existe um incremento importante da rivalidade
entre as crianças, que passam a se preocupar com o futuro muito precocemente. Em
contrapartida, o espaço para as brincadeiras e jogos infantis foi reduzido.
Esse mundo que enfatiza a rivalidade, esvazia as relações de troca mais ternas entre
crianças, o que leva a solidão no atual mundo da criança, além da própria diminuição no
número de filho das famílias, outro obstáculo real para o mundo das trocas entre crianças.
A solidão passa a ser preenchida pela presença dos jogos eletrônicos e da
televisão, de forma que a criança convive ativamente com personagens virtuais, o que
perturba ainda mais a experiência de alteridade( o outro). A televisão coloca as crianças
muito precocemente em contato com temas e situações do mundo adulto, como
sexualidade, violência e drogas.
A maior ausência dos pais de casa deixam as crianças durante o dia, sem
praticamente qualquer limite, ou seja, há uma frouxidão dos interditos, ficando elas sem
um contraponto seguro ante aquilo que incide sobre elas, impossibilitando a
metabolização simbólica destas mensagens e temáticas. É claro que isso, traz uma
alteração nas relações da criança com o corpo, as proibições e o outro. Uma cultura
centrada sobre a imagem como é a nossa na atualidade, terá efeitos significativos sobre o
organismo e a imagem corporal.
Algumas outras transformações que vieram ocorrendo desde os anos 1950 e 1960,
foram mudando as características da nossa sociedade: a revolução feminista, que
reivindicou direitos iguais aos do homem, tanto no espaço de casa quanto no trabalho; a
invenção dos anticoncepcionais, que permitiu as mulheres o domínio sobre seu corpo e o
desejo. A família nuclear como célula básica da sociedade moderna, constituída por pai, mãe
e filhos deixou de existir. As figuras parentais, principalmente a mãe, porque o pai já detinha
esse poder, passaram a ter projetos existenciais próprios, independentes do campo da
família. Em decorrência disso, a relação entre pais e filhos se transformou radicalmente.
Com a maior singularização das figuras parentais, os divórcios que antes eram
alvo de censura pública se tornaram lugar comum. Constituíram-se assim, novos modelos
de família, nos quais as novas figuras parentais passaram a se associar trazendo filhos
provenientes de casamentos anteriores. Outros problemas apareceram; quem são os
responsáveis efetivos pela prole de alianças anteriores? O pai e a mãe? Ou o padrasto e
a madrasta? Ou ambos? Assim, muitas ambiguidades passaram a marcar crianças e
adolescentes.
Além disso, as mães que passaram a se distanciar mais da ordem familiar, não
foram substituídas pela maior presença dos pais, o que provocou uma economia dos
cuidados com as crianças e adolescentes, de forma significativa.
A partir disso, uma série de desdobramentos e consequências psíquicas foram se
produzindo: o sentimento de abandono, já que nem o excesso de atividades e nem os
empregados suprem o investimentos afetivo (precariedade) que a presença dos pais traria
para as crianças e jovens.
Estamos ainda num momento histórico de passagem, de maneira que as figuras parentais
não conseguiram ainda encontrar o ponto de equilíbrio entre terem seus projetos
existenciais singulares e o cuidado familiar dos filhos.
Neste contexto, os jovens ficam entregues a cultura da televisão, que passou a ter
mais efeito sobre eles que o discurso escolar e parental. Há um incremento da exposição
precoce a sexualidade e a violência, o que provoca novas modalidades de sexuação e o
engendramento da agressividade. Esses seriam os meios que os jovens encontram se
suprir a carência de cuidados e a solidão de sua existência.
Além disso, a explosão da violência urbana no Brasil faz com que crianças e jovens,
não compartilhem mais com seus iguais o espaço público, pelo perigo eminente da
violência e delinquência, ficando restritos a convivência mais na escola. Ao lado disso, os
jovens, e sobretudo as crianças não vão a escola sozinhos, mas geralmente em ônibus
escolares e nos carros da família.
O efeito disso é uma fragilização psíquica das crianças e jovens. Por não poderem
experimentar as dificuldades e impasses que o espaço da rua impõem, os jovens não
constroem medidas de proteção, pois não puderam aprender a antecipar o perigo,
ficando expostos então a experiências traumáticas. Mal conhecem a cidade e o bairro onde
moram. Essa restrição a casa e a escola, o engaiolamento espacial incide marcadamente
sobre o psiquismo, pois restringe o imperativo de ir e vir ou seja, no registro de liberdade.
Qualquer coisa pode então se tornar perigosa e assustadora. O exercício da violência
pode se instituir como única defesa diante do sentimento de impotência e restrição de
liberdade.
Afetivamente privados, fragilizados pelo excesso de proteção, sem poder adquirir
instrumentos psíquicos de ir e vir pela falta de domínio do espaço público, os jovens
não podem aprender a se virar. Em decorrência disso, a infantilização da sua condição se
prolonga, de forma que a adolescência se arrasta para além dos limites desejáveis e invade a
idade adulta.
Ao lado disso, a defasagem existente hoje no Brasil entre a grande população jovem e
as restrições do mercado de trabalho para incorporá-la aumenta a cada ano. Com isso, a
possibilidade de sair da casa dos pais e seguir a própria existência se prolonga em demasia,
pois os jovens tem poucos meios para ir embora. Permanecem então na casa dos pais,
protegidos por estes, mas querendo levar uma existência de adultos. Passam a viver quase
maritalmente com namoradas e namorados, na casa dos pais o que cria uma grande
confusão geracional, pela indiscriminação entre jovens e adultos isto é, entre filhos e pais.
Neste cenário de privação, fragilização e infantilização, juntamente com o
contexto social de falta de horizonte para o futuro, não é de espantar que a cultura das
drogas e da violência se imponham como marcas da juventude hoje. As drogas funcionam
como antídotos para o sofrimento, pelo gozo e pela onipotência que possibilitam; o exercício
da violência e da agressividade em geral são as contrapartidas para a impotência juvenil.
A cultura pitbull se alastra, como se dar porrada e brigar fossem símbolos valorizados
entre os jovens para marcar sua superioridade ante os outros. Ter força física e mostrar isso
ostensivamente para os outros é a única maneira de os jovens acreditarem ilusoriamente na
sua potência efetiva, quando a impotência é o traço fundamental de sua condição psíquica e
social.
A cultura da tatuagem é outra forma de singularização buscada atualmente pelos
jovens, diante de sua invisibilidade identitária.