2016 - 2º Semestre

Uma Nova Amiga (França 2014)

Filme de 19 de novembro de 2016

Comentários de Monica Petroni Mathias e Gley Marques da Silva

Tema do Semestre: Todas as formas de amor…..

Nouvelle Vague é um movimento surgido na França na década de
50 com nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude
Chabrol e que propõe uma Revolução Cinematográfica: um modo mais
livre de fazer cinema, com mais locações externas nas filmagens,
menos restrições dos estúdios, produtores ou roteiristas; um enfoque
mais solto para o ato de atuar; e, mais importante, diretores que iriam
escolher o próprio material e criar filmes pessoais expressando a
presença marcante do diretor e sua visão pessoal da sociedade, tal
qual ocorre na autoria de um livro ou música.
Nascido em novembro de 1967, François Ozon, é considerado
herdeiro da Nouvelle Vague e um dos principais diretores do cinema
francês do momento, já realizou em torno de 25 obras
cinematográficas entre curtas e longas, com filmes que apresentam
temas polêmicos, retratam conflitos familiares geralmente de forma
densa, construídos com personagens fortes que mobilizam inquietação
e questionamentos no espectador.
Além do filme de hoje, Jovem e Bela (2013), Dentro de Casa (2012)
também se incluem nesse universo…
Une Nouvelle Amie (França, 2014) é inspirado num conto de Ruth
Rendell (The new girlfriend, 1985), escritora inglesa falecida ano
passado, com vários romances publicados e premiados no gênero
suspense e que também explora personagens perturbadores.
Para Junia Barreto psicóloga e pós doutora em literatura e
civilização francesa, pesquisadora em cinema pela Universidade de
Brasília (UNB) “Ozon revela gozar do exercício pleno e prazeroso de sua
arte, desconsiderando toda e qualquer tomada de partido entre comédia
e drama, entre inocência e perversidade, entre homem e mulher, e outros
binarismos mais. O resultado é perturbador e Ozon realiza uma dinâmica
fílmica que ultrapassa a ideia de contextos exclusivamente locais ou
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nacionais, oferecendo ao expectador uma perspectiva essencialmente
humana e de caráter transnacional”
O filme Uma nova amiga, nos apresenta de início o funeral de
Laura, vestida de noiva no caixão, seguindo-se a cerimônia onde sua
amiga Claire faz um emocionado discurso póstumo na missa por
Laura: _“ Vou passar o resto da minha vida cuidando de David e Lucie”.
A seguir, acompanhamos em flashes, a trajetória dessa amizade
entre Claire e Laura – suas brincadeiras inocentes até inusitados
pactos de sangue com juras de lealdade na vida e na morte, o
relacionamento até a idade adulta, numa vivência de tamanha
intimidade, que chega a levantar suspeitas.
No filme fica visível a personalidade extrovertida e desenvolta de
Laura x uma personalidade inibida e submetida de Claire, que
encontra em Laura um objeto de profunda admiração. A experiência de
amizade é vivida diferentemente por ambas: enquanto Laura transita
livremente entre a convivência com Claire e os flertes adolescentes,
Claire se apresenta dependente da amiga, tem por ela grande devoção
– que transparece em suas atitudes, revelando ocasionais momentos
de desamparo quando percebe não ter a garantia de poder contar com
Laura somente para si.
Em geral, na adolescência, os primeiros objetos de investimento
amoroso são os amigos do mesmo sexo, com quem se mantém intimas
confidências e relacionamentos, representando por vezes um objeto
idealizado de si mesmo e projetado no(a) companheiro(a).
Laura seria para Claire o que ela mesma gostaria de ser? Uma
parte de si mesma projetada em Laura, que Claire busca viver através
de uma relação quase fusional com a amiga?
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Laura segue em busca de outras experiências afetivas, casa-se
com David parecendo representar para Claire um momento de ruptura
daquela amizade vivida por ela de forma tão exclusiva.
Na sequência vemos o casamento de Claire com Gilles rapaz que
conhece na mesma balada e ao mesmo tempo que David e Laura se
conhecem.
A doença e morte precoce de Laura têm sobre Claire um efeito
devastador; entra num estado de profunda depressão onde parece que,
prostrada numa cama, sua vida perdeu todo sentido.
Claire perdeu Laura sua grande amiga, mas pode-se perguntar: O
que Claire perdeu com a morte de Laura?: Uma parte de si mesma ?
Um grande amor?
Presa às lembranças da amiga, o filme mostra sua obsessão ao ver
Laura em pessoas com quem cruza em seu caminho, seu desinteresse
por tudo que a cerca – casamento, trabalho – a dificuldade em retomar
sua vida num processo de luto sem fim.
Embora temerosa, incentivada pelo marido, Claire vai à casa de
David, viúvo de Laura, encontra a porta destrancada e se depara com
uma cena inusual: David vestido com roupas de Laura, amamenta a
pequena Lucie.
Após tentar justificar que se tratava de um recurso para acalmar o
bebê devido à ausência da mãe e ser duramente recriminado por
Claire, David conta que este era um segredo do casal – Laura sabia
dessa sua tendência manifestada desde muito pequeno, que havia
conseguido contê-la devido à presença e feminilidade de Laura, mas
que agora, após sua morte, tudo voltara.
David expõe a difícil tarefa de conter seu roteiro de se travestir
desencadeado novamente pela morte de Laura, cujo objetivo é
minimizar
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estados de angústia frente a ausência e a saudade daquela que fazia
parte de seu “teatro privado”.
David busca em Claire uma nova parceira suscetível a
desempenhar o papel que antes era de Laura e pede a ela também
segredo; Claire acede ao pedido.
Já há algum tempo que estudiosos do mundo mental e de suas
manifestações, percebem que o binômio homo/hetero não dá conta da
pluralidade de expressões identitárias, dos pares das relações
amorosas, das manifestações de desejo e da diversidade das
constituições familiares. Os papéis masculino e feminino não são mais
nitidamente demarcados e temos que nos haver com o surgimento de
novos modelos identitários.
Joyce Mc Dougall, psicanalista neozelandesa radicada na França
apresenta no prefácio de um de seus livros (As múltiplas faces de Eros)
a indagação “Sexualidade humana: uma busca eterna?”, refletindo que
na busca de amor e satisfação são múltiplos os conflitos psíquicos que
se produzem a partir do embate entre o mundo interno das pulsões e a
censura do mundo externo.
Nos capítulos que se seguem ela destaca aspectos da sexualidade
humana, expressões de amor e erotismo incomuns, diferentes de uma
sexualidade dita normal, entendendo-as como a construção de um
roteiro que se relaciona à identidade subjetiva daquela pessoa e que
são buscados para dissipar estados mentais de angústia e dor.
Mc Dougall denominou de “neo-sexualidades” em substituição ao
termo “perversão”, – esses roteiros eróticos tidos como incomuns – que
podem assumir diferentes desenhos, disfarces, jogos, entre outras
escolhas.
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No filme, Claire parece logo topar o jogo proposto por David.
Vemos uma Claire muito mais curiosa do que impactada ou
assustada, procurando na internet sites de crossdressers e
rapidamente
se inserindo no papel solicitado por David revelando pouco desconforto
no triangulo instaurado: David/Virginia e ela.
Claire questiona David se esse comportamento teria algo de
traumático num possível desejo de sua mãe ter uma filha, focalizando
na figura materna o fator fundamental dessa sua manifestação, mas
David nega, dizendo que nunca percebeu tal desejo em seus pais. Diz
que se vestir de mulher é uma necessidade imperiosa, um prazer que
obtem com a figura feminina que adota, e que não sente atração ou
desejo por outros homens. A identificação de gênero de David é com
mulher, mas sua orientação sexual, i.e., por quem se sente atraído, é
hetero, apresentando duas realidades distintas.
Aos poucos, David vai revelando um comportamento compulsivo,
com características aditivas: o desejo imperioso, a dependência à
figura feminina que monta, a oscilação entre a depressão e a mania,
um enganoso alívio de angustias, num estado de prazer momentâneo
mas tão intenso, que fica difícil renunciar.
Para o o psicanalista Birman (Joel) em “Mal estar na atualidade: A
Psicanálise e as novas formas de subjetivação” – “ o que orienta o
indivíduo é a busca desesperada de uma poção mágica que impossibilite
o reconhecimento do sofrimento”.
E qual seria núcleo de sofrimento de David?
Alguns estudos apontam o crossdressing como expressão de uma
homossexualidade latente. Outros, entendem que a dificuldade estaria
na renúncia aos anseios infantis da bissexualidade, i.e. tendências
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masculina e feminina que coexistem em todos os indivíduos na mais
remota infância e consequente aceitação da monossexualidade.
Penso que David parece buscar algo diferente, mais primitivo, um
aplacamento de fortes angústias desencadeadas talvez por sensações
de
aniquilamento frente à falta ou vazio, que ele tão bem expressa ao falar
do efeito que lhe causou a morte de Laura e da necessidade do uso de
antidepressivos. Apesar de tentar lutar contra seus desejos, percebe
que estes são mais fortes.
O bebê que se acalma com a roupa da mãe, o casaco de peles de
sua mãe que David guarda, para surpresa de Claire, parecem sugerir
uma busca por revestir-se da pele/roupa materna, como defesa frente
a angustias de separação conforme ressaltam outros psicanalistas,
num outro olhar, (Greenson, Meltzer, Bick), ao analisar o travestismo.
Na verdade não é tão simples explicar o que significa exatamente o
crossdressing, existem poucos estudos e algumas referências sobre o
tema, nenhuma conclusiva sobre a etiologia, mas todas elas
convergindo para a construção de uma identidade altamente desejada,
quase imperiosa, buscada como fonte de prazer e que foge do controle
do indivíduo.
Para Freud a concepção de desejo refere-se, embora não
rigorosamente, ao desejo inconsciente, ligado a traços mnésicos de
signos infantis indestrutíveis, restabelecendo uma situação de prazer
da primeira satisfação.
Para ele, a busca do prazer e a evitação do desprazer determinam
o objetivo da vida de todo ser humano, embora considere irrealizável
um projeto de felicidade plena. Entende que a civilização impõe
restrições à vida sexual do homem restringindo as possibilidades de
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encontrar fonte de felicidade no amor e na sexualidade. (O mal estar
na civilização)
A sequência do filme mostra Claire completamente integrada ao
roteiro David/Virginia nome escolhido por ela, participando e ajudando
David a dar vazão às suas fantasias, recuperando entusiasmo e
vontade
de viver. E David mostrando o grande prazer que obtem com Virginia,
a figura feminina que ele consegue montar.
Claire vai se adaptando cada vez mais à fantasia de David, vivendo
junto com Virginia momentos lúdicos e prazerosos revelando que não
mais se trata apenas de atender ao pedido de David, mas de atender
apelos de seus próprios impulsos, como ele lhe aponta em certo
momento: – “ Mas você também está gostando da brincadeira”
David amplia seu jogo que não mais se limita a vestir-se de
mulher: com o tempo quer sair às ruas, fazer compras no shopping,
frequentar restaurantes e se submeter a sessões de depilação.
De um teatro privado de David vemos surgir um teatro
compartilhado, que passa a atender não somente às singularidades de
sua identidade, mas também às de Claire cuja identidade de gênero é
feminina, embora comece a emergir, de forma mais evidente, uma
orientação homossexual.
O que buscam um no outro? Laura, a parceira perdida, num luto
não elaborado para ambos? A possibilidade de realizer, na dupla, um
roteiro idealizado que atende aos desejos até então reprimidos de cada
um? A realização de fantasias e desejos inconfessáveis e frustrados ?
Do impacto e desconcerto inicial de Claire, vemos surgir “uma
nova amiga” para os dois, numa relação de cumplicidade que vai
ganhando força, encantando e atraindo-a cada vez mais para
David/Virginia.
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A força dessa atração também se revela nos sonhos e devaneios
eróticos de Claire quando na casa de campo e no vestiário do clube, em
sua ambiguidade na manifestação de seus desejos, e na satisfação com
que participa da vida ao lado de David/Virginia.
Miriam Chnaiderman diretora e roteirista do documentário “De
Gravata e Unha Vermelha” traz à tela depoimentos de nomes famosos e
outros nem tanto, de travestis, homossexuais, transexuais,
crossdresses que discorrem sobre “um mundo transgressor onde a
sexualidade é reinventada” e as dificuldades encontradas para dar
expressão às suas identidades de gênero.
Para eles a questão que se coloca não é definir-se como homem ou
mulher mas “sim buscar ser, a versão mais verdadeira de si mesmo”.
Alguns desses depoimentos têm como fundo musical Super
homem, de Caetano Veloso
Um dia, vivi a ilusão
De que ser homem bastaria
Que o mundo masculino
Tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada
Minha porção mulher
Que até então se resguardara
É a porção melhor
Que trago em mim agora
É o que me faz viver…
Ainda nesse documentário, a maioria dos entrevistados se refere
às suas relações familiares com relatos de abusos e dificuldades na
infância, mostrando um amplo espectro de vicissitudes, por vezes
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desde muito novos (um dos entrevistados era obrigado, pela mãe, a se
vestir de menina desde pequeno).
No filme de Ozon, salvo a informação de que David gostava de se
vestir de mulher desde muito menino, não sabemos mais nada de sua
vida familiar ou da vida familiar de Claire.
Para Paulo Roberto Cecarelli, psicanalista e pós doutor pela
Universidade de Paris, “certas manifestações da sexualidade podem
surpreender por seu caráter insólito, e a análise de tais práticas mostra
que estas “invenções” são, no fundo, rearranjos de velhos conflitos que,
quando criança, o sujeito teve que enfrentar em suas primeiras trocas
com o mundo.”
Ao final do filme um turbilhão de desejos, atração, medo e repulsa
passa a envolvê-los, numa incessante busca de soluções que possam
dar conta da expressão de suas identidades, mas principalmente,
alívio de angústias e conflitos.
Claire não suporta mais viver sem Virginia e sem o despertar
revelador sobre si mesma, que essa nova amiga fez emergir.
Quando no hotel, se dá o encontro sexual entre David/Virginia e
Claire e esta repentinamente se dá conta que está na cama com um
homem, interrompe a relação abruptamente, rejeita-o, provocando em
David/Virginia um colapso quase fatal, que culmina com o
atropelamento.
Mas em seguida será ela mesma quem se encarregará de tirar
David do coma, de certa forma ressuscitando-o com a canção “Une
Femme avec toi”: “E, finalmente, pela primeira vez, eu me senti mulher,
uma mulher com você”
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Um tributo à mulher que ela Claire deixou emergir a partir da
relação com Virginia.
Ao final do filme, após 7 anos, promessa cumprida: “ Vou passar o
resto da minha vida cuidando de David e Lucie”.