2016 - 1º Semestre

Preciosa – Uma História de Esperança (EUA 2009)

Filme do dia 30 de abril de 2016

Comentários de Andréa Esquivel  e Vera Lúcia Blank Gonçalves

Tema do Semestre: Corpo

“Uma princesa que vivia numa bolha no fundo do mar, e ela era da terra”…

“Eu defino assassinato da alma como uma deliberada tentativa de interferir na identidade distinta de
outra pessoa, na alegria de viver e na capacidade para amar. Isso costuma acontecer na infância:
quando a dependência, praticamente absoluta, da criança sobre um adulto, mais freqüentemente um dos
pais, torna possível um regime de crueldade e sedução, (hiper estimulação) alternado com indiferença e
negligencia (privação) que proporciona o ambiente matriz para o assassinato da alma. Uma
identificação com e a submissão ao atormentador é forçada sobre a criança.”
Dr. Leonard Shengold
Agradeço a oportunidade de estar aqui, comentando esse filme que trata de
uma questão tão difícil que é a violência vivida dentro do ambiente familiar,
aquele justamente que tem como função nos proteger! É um duplo abuso!
É um filme belíssimo,apesar de retratar uma realidade cruel, mas que nos fala
de esperança, e da importância dos sonhos e da vida de fantasia para não
enlouquecermos diante de situações de tanta violência e dor! Que nos fala de
amor e ódio, a força da pulsão de vida versus a força da pulsão de morte!
A família é o assoalho psíquico da criança. Desde a gestação vão se
desenvolvendo na mente dos pais as funções materna e paterna,
acompanhando as mudanças físicas e hormonais no corpo da gestante. É a
necessária preparação para aquele ser que vem ao mundo, indefeso, e
totalmente dependente desses adultos.
Mas o que acontece quando a criança é exposta a uma situação de extrema
violência, abuso e crueldade como a Preciosa, uma adolescente de 16 anos,
que sofre maus tratos físicos e morais, é estuprada pelo próprio pai, desde os
três anos de idade, com quem tem dois filhos, e tudo sob o olhar permissivo da
própria mãe? Que sentimentos estão presentes nesse cenário? Dependência,
submissão, amor, ódio…
Quando a professora lhe faz uma pergunta: – Como você se sente?
Ela reticente responde concretamente: – Aqui…
Falar de sentimentos para ela é algo novo, impensável!Não pode sentir, só
pode comer vorazmente para depois vomitar e/ou sonhar, como uma fuga
deste inferno que ela acredita não ter saída, só um milagre, ou a morte…
O seio inexistente resulta em um desastre psicológico, um vazio, com a perda
do contato com a realidade, apatia, depressão grave, agressividade e ódio
projetados no mundo. Num ambiente doentio, uma relação de objeto doentia
vai sendo internalizada pela criança e transformada em identificação. É o fator
espelho. Agora, é a relação entre o indivíduo e seus objetos internos que está
doente. A relação com o mundo, a sua forma de ler o mundo se torna
patológica.
O holding (Winnicott) é a empatia materna, a compreensão da mãe das
necessidades do lactente. Esse holding é ausente. O ego fica regredido a um
estado de não integração, devido às falhas do ambiente. E para poder
sobreviver adquire um falso self como defesa contra o aniquilamento, se
isolando numa defesa autista,aonde o senso primitivo de ser foi perturbado;
vive num mundo dominado pelas sensações, procura mais as sensações do
que os objetos como tais; não responde às pessoas como pessoas mas
principalmente em termos das sensações que elas provocam (daí as
fantasias).
Impedida de SER por uma mãe violenta e omissa e por um pai sedutor e
estuprador, ela se torna, na mente doentia da própria mãe, sua rival – rival
essa que tem que ser eliminada, pois é uma ameaça à fêmea abandonada. O
objetivo primeiro do indivíduo consumido pelo ódio é destruir o objeto.
Esse sadismo da mãe em relação à Preciosa e do pai – portador do vírus da
AIDS- remete a uma conexão entre estado narcísico de prazer e o ódio da
destruição em relação a objetos externos (filha). São os vampiros que vivem
na “casa de baixo” e que querem sugar seu sangue…
Há uma desfusão das pulsões, prevalecendo agressão e ódio, pura
manifestação da pulsão de morte! Em contraste com a forma mais primitiva do
ódio, o sadismo caracteriza-se pelo desejo não de eliminar, mas de manter a
relação com o objeto odiado através de uma relação objetal entre um agente
sádico e uma vítima indefesa.
A saída para sobreviver a essa hecatombe é viver dentro dessa concha
protetora: ela não fala, não se comunica com ninguém, vive no seu mundo de
fantasia, mas sonha! Está na sala de aula apenas fisicamente, porque a mãe
recebe auxílio do governo, mas ao mesmo tempo essa mãe esquizofrenizante
e enlouquecedora passa uma mensagem dupla: estudar é ruim, você é burra,
você é feia, você não presta, roubou meu homem… você é gorda – ao mesmo
tempo em que a obriga a comer…Nessa hora, para escapar da loucura, ela
fantasia uma mãe bondosa, dizendo como no filme:
– Manja, amore mio, manja que te fa bene!
E como só recebe agressões físicas, se defende quando o mundo lá fora a
agride também com violência – é a sua leitura do mundo: ninguém me
ama,nunca tive um namorado, ninguém segurou na minha mão…
A morte acaba sendo imaginada como a salvação, “olho para o céu esperando
que algum móvel, alguma coisa caia sobre a minha cabeça”… É um quadro de
melancolia – quando o próprio Ego se abandona porque se sente odiado e
perseguido pelo Superego, ao invés de amado.
Para o Ego: viver = ser amado, e ser amado pelo Superego (que aparece
aqui como representante do ID).
O ódio projetado da mãe sobre ela a faz crer que “seu pai a deseja mais do que
à própria mãe e vai se casar com ela”, gerando um sentimento de culpa
inconsciente – ela esconde o fato, não acusa, não pede socorro! Está
prisioneira dessa família doente e louca e desse Superego cruel internalizado.
Quando sua segunda gravidez a impede de frequentar a escola, seu
desamparo chama a atenção da diretora mais sensível, que a encaminha para
um lugar especial. E então, semelhante a um paciente que chega ao nosso
consultório “em pedaços” , que nem consegue falar das suas dores,surge um
raio de esperança na pessoa da professora! Ser vista, ser ouvida pela primeira
vez!
Preciosa tem uma força de vida e um potencial herdado (há uma figura
bondosa na avó) que, ao encontrar um grupo de pessoas desajustadas como
ela começa a aprender a viver! Um caderno para escrever e contar dos seus
sentimentos, escrever seus sonhos, uma nova vida de relação se apresenta,
alguém segura na sua mão, alguém lhe dá um presente, ela pode se sentir
querida e segura…Aprende a receber e aprende a dar (o cachecol vermelho),
agora fazendo novas identificações!
Abre-se uma janela na escuridão e começa a entrar o sol na sua vida! E a força
da maternidade dá-lhe a coragem necessária para romper de vez com aquela
mãe-vampiresca odiosa e odiada – e se libertar!