2011 - 1º Semestre

Na Natureza Selvagem (EUA 2008)

Filme do dia 16 de abril de 2011.

Comentários de Eduardo Rajabally  e Adriana Maria Breda Fatalla.

Tema do Semestre: O caminho e o caminhante

Que filme maravilhoso!!! Este é um filme que eu já gostava, mas quando o assisti com
a intenção de comentá-lo, ampliei meu olhar e pude perceber uma construção
cinematográfica complexa, sensível e riquíssima em simbologias. A riqueza de detalhes
desse filme é tanta, que poderíamos ficar aqui conversando horas. Priorizarei algumas
questões para conversarmos nesses 20 minutos.
O filme Na Natureza Selvagem é um “road movie”, filme de estrada, onde a história se
desenrola durante uma viagem. Viagens de uma maneira geral, permitem uma ampliação da
visão de mundo, o contato com o novo e desconhecido, podendo colaborar com o
desenvolvimento e amadurecimento de quem viaja. Neste filme, que aliás, se baseia em uma
história real, a de Christopher Johnson McCandless, contada no livro de John Kraukauer,
podemos acompanhar, passo a passo, o amadurecimento que a viagem empreendida por
ele promove.
Penso que esse filme é uma obra de arte. A utilização farta de poesia, música e
imagens que falam por si, é de uma sensibilidade impressionante. Transformam uma
experiência árdua de viagem ao mundo interior do personagem, com seus conflitos e
angústias, em um filme agradável de assistir.
Outro recurso utilizado neste filme, é a alternância entre passado e presente, tanto em
sua história de vida, como em sua viagem. Penso que esse movimento traça um paralelo,
com o como ocorre o desenvolvimento psíquico do ser humano, onde em um processo de
elaboração de um conflito, de uma angústia, esse vai e vem faz parte. Em termos
psicanalíticos poderíamos dizer que é necessário “recordar, repetir e elaborar.” ( Freud 1914)
A narrativa da história de vida de Christopher é dividida em capítulos, nascimento,
adolescência, masculinidade, família e como capítulo final, tornando-se sábio. Ao longo do
filme, a medida em que cada capítulo se desenrola,temos a possibilidade de acompanhar
quais questões ficaram “mal resolvidas” em cada fase de sua vida e como em sua viagem ele
teve oportunidade para lidar com elas, resignificando-as; sempre à partir de novas
experiências promovidas por um encontro com um outro.
A principal questão que esse filme me suscitou e desejo conversar com vocês hoje, é o
quanto ele permite que conversemos sobre o DESNVOLVIMENTO DO PSIQUISMO
HUMANO, principalmente no que se refere ao lugar que o “OUTRO” ocupa nesse processo.
O filme começa com uma poesia:
“Há um tal de prazer nos bosques inexplorados;
Há uma tal beleza na solitária praia;
Há uma sociedade que ninguém invade, perto do mar profundo e da
música do seu bramir;
Não que ame menos o homem, mas amo mais a natureza…”
Lord Byron
Essa poesia Introduz as principais questões existenciais do personagem, relações
humanas, solidão, desejo de explorar o desconhecido.
Aparece também o personagem principal dentro de um vagão de trem em movimento,
e no beiral da porta inscrito Alexander Supertramp, o nome que ele resolveu dar a si mesmo.
Portanto, faz alusão a outro ponto fundamental do qual o filme trata, que é a viagem interior
que Christopher faz em busca da própria identidade, através da viagem real.
Na seqüência aparece na tela escrito, uma carta de Christopher para Wayne, um amigo
com quem se relaciona ao longo da viagem, e a quem ele diz “Só queria dizer que você é um
grande homem”. Então mostra Wayne dando carona para Christopher e quando ele desce do
carro, deixa “umas tralhas” para trás dentro do carro e ganha um par de botas , com nome e
telefone de Wayne inscrito dentro. Então Wayne diz: “Se sair dessa vivo me liga, tá? É nesse
momento que aparece o nome do filme.
Podemos pensar que esse trecho faz menção aos ganhos mútuos que as relações
afetivas trazem e introduz outra questão , a dos limites humanos, sendo o maior deles, a
morte. Interessante o nome do filme aparecer nesse momento, pois aqui estão lançados os
principais pontos sobre os quais se baseia o capítulo final do filme, as conclusões a que
Christopher chegou em sua viagem. (“A felicidade só é real quando compartilhada.” )
Seguindo a seqüência do filme, Christopher vê o ônibus pela primeira vez e diz: “Oi?”
Vasculha o ônibus. Sobe no teto do ônibus e diz: “Tem alguém aí? Eu acho que não, né.”
Aparece a imagem do céu com nuvens, que é o que ele vê quando ele morre. Isso nos remete
a solidão, morte. Mais adiante ele encena um diálogo com um velho e diz: – “Escuta aqui meu
velho. Não me analisa, tá? Cala a boca. Você vem comigo para onde vamos.” Muda o tom de
voz e responde: -“Para aonde vai?” Responde: “Eu já disse, a lugar nenhum!” Podemos
pensar no desejo de dirigir a própria vida e ser aceito, mesmo que seja por caminhos
diferentes do pai.
Esse trecho acima aponta a direção da origem de seu sentimento de solidão, que está
baseado na dor de não ser percebido pelos pais como alguém que tem existência própria.
Pouco depois mostra ele escrevendo , “não mais disposto a ser envenenado pela civilização,
ele foge… e caminha solitário pelo mundo, para se perder em meio à natureza. Podemos
pensar: Ele escreve sua própria história.
Então, o filme volta no tempo para dois anos antes do ônibus mágico, mostrando a
formatura de Christopher. Uma autoridade da escola pede uma salva de palmas com gratidão.
Aproveitamos para ressaltar que, em uma relação saudável com quem nos oferece coisas
boas, podemos sentir gratidão. Observação à parte, algumas pessoas quando recebem
coisas boas, ao invés de gratidão, sentem inveja. Deste trecho do filme até acabar o capítulo
sobre o nascimento, o assunto abordado é sua relação com seus pais. Várias passagens
mostram como seus pais eram rígidos , não compreendiam e não o acolhiam:
– assustam com pulo do filho no palco quando este vai receber o diploma;
-criticam o filho por ele deixar a irmã dirigir;
-não percebem o valor afetivo que o Datsun(carro) tem para o filho, não dão atenção para ele,
dão coisas ao invés de afeto. Querem lhe dar um carro novo e ele recusa.
A irmã aparece como a única pessoa que compreende Christopher, e em vários
momentos do filme, é através dela que conhecemos parte da história dele. Ela fala da solidão
do irmão e diz que ele se refugiava lendo Tolstoi, Jack London e Thoreau, e era capaz de citar
suas frases adequadas a cada situação e sempre o fazia. Aqui podemos pensar a respeito de
sua busca por pessoas com as quais pudesse se identificar, já que não encontrava essa
possibilidade nas figuras parentais.
Christopher doa sua poupança para uma instituição e foge com falta de moderação.
Corta seus documentos, sua identidade com uma tesoura e joga-os no lixo. Tenta deixar seu
passado para trás e vai em busca de uma identidade, escolhendo até um novo nome para si
mesmo, procura o cerne de sua existência.
Nesse momento do filme começa o Capítulo 1: Meu Nascimento. Em uma conversa
com Ian, a mulher hippie que ele conhece, fala sobre seu desejo de não depender mais do
que de flores e frutas, e fala também à respeito de mais uma queixa em relação a seus pais, a
falta de verdade. Ele cita Thoreau: “Mais do que amor, dinheiro, fé, fama, equidade,… me
dêem verdade.” Diz também que carreira e grana incentivam a cegueira.
Portanto, Christopher sente que seus pais não conseguem voltar o olhar para ele, enxergá-lo
como um outro, diferente deles, e principalmente, não se sente acolhido e amparado em suas
dificuldades. Esse sentimento de desamparo é muito doído. Ele deseja depender apenas de
flores e frutas para não precisar depender de um outro ser humano, pois tem medo que a
experiência se repita.
Ao longo de sua viagem, Christopher encontra várias pessoas com as quais tem
oportunidade de viver novas experiências de relações humanas, possibilitando uma
ampliação de seu repertório psíquico, no âmbito do manejo de suas emoções, de seus afetos.
Por exemplo, no relacionamento que ele estabeleceu com o casal hippie, podemos verificar
que ambos se beneficiaram com esse encontro, o que fica claramente representado pela
reconciliação do casal, simbolizada através da transa; e pelo enfrentamento que Christopher
começa a poder fazer de seu medo do desamparo, da falta de acolhimento, em termos
psicanalíticos, de continência, de reverie, simbolizado pelo momento em que ele consegue
entrar no mar, já que ele tinha medo da água ( mar – oceano ).
O encerramento desse capítulo sobre o nascimento se dá com a cena do casal vendo
escrito na areia: “obrigado Ian e Rainey”, e em seguida mostra pássaros sobrevoando mar
revolto. Isso nos remete a pensar a respeito do quão importante é sentir gratidão para poder
crescer, alçar vôo, descobrir caminhos próprios para lidar com as turbulências internas. Então,
aparece a imagem dele indo embora pela estrada, sobreposta pela sombra dos pássaros
voando. Portanto, simbolicamente está introduzida a adolescência nesse momento onde ele
pode deixar o casal parental e partir em busca do próprio caminho. Esses detalhes sutis,
delicados e profundos me encantaram nesse filme.
O Capítulo 2: A Adolescência começa com uma música e imagens de Christopher na
natureza, ilustrando o conteúdo da música, que fala sobre crescimento. Muito bonito, mas não
dá tempo de detalhar aqui. O tema sobre a onipotência do adolescente também é abordado,
em vários momentos nesse capítulo. Citarei apenas um exemplo; dentro do ônibus mágico, na
terceira semana, ele diz: “Forte. Você pode tudo. Pode ir aonde quiser. Grana, poder são uma
ilusão. Está tudo aqui na natureza.” Aparecem outras questões da adolescência, tais como
sexualidade, revolta com a sociedade e a transgressão de limites.
No Capítulo 3: Masculinidade aparecem várias cenas dele brincando de se equilibrar.
Está tentando buscar o equilíbrio, tentando elaborar seus conflitos. Aqui sua irmã fala de seus
problemas com seus pais e aparece uma cena onde seu pai se intitula Deus. É neste capítulo
que fica mais explícito o quanto o Chamado da Selva tem haver com uma tentativa de buscar
equilíbrio, de elaborar seus conflitos e encontrar sua identidade masculina.
Irmã fala da dor dos pais e do quanto eles mudaram e se aproximaram. Então aparece
Christopher matando e dessecando o alce para conservá-lo, tentando garantir comida por um
tempo. Ele mexe nas vísceras do alce e tira seu coração. Todo seu trabalho dá errado e ele
perde tudo. Ele vive uma grande frustração, diz que essa é uma das grandes tragédias de sua
vida. Podemos pensar na dor visceral que é ter que lidar com as limitações, com a perda
gradual da onipotência, mexendo assim com questões primitivas; falando em termos
psicanalíticos, da ordem de ferida narcísica. No entanto sabemos que dor promove
mudanças, e só a medida que ele for se dando conta de suas limitações é que ele pode se
desenvolver.
É no Capítulo 4: Família que Christopher conhece Tracy, garota com quem se
encanta; diz á ela: “Você é pura magia”. Ele fala sobre o amor, começa a poder Olhar e Ver o
Outro. As Pessoas começam a caber em seu mundo psíquico. Isso aparece no filme de
maneira bastante interessante, quando ele lê o trecho de um livro: “Já vivi muita coisa e agora
acho que descobri o que é preciso para ser feliz. Uma vida calma e sossegada no
campo…com a possibilidade de ser útil as pessoas.” Nesse momento a palavra pessoas
aumenta bastante de tamanho. E continua: “O trabalho se espera possa ser útil. Descansar,
natureza, livros, música,… Amor pelo próximo. Essa é a minha idéia de felicidade. E aí…
acima de tudo isso ter você por companheira, e filhos talvez. O que mais o coração de um
homem pode desejar?” Em seguida aparece Christopher tomando banho, depois arrumando
suas coisas para ir embora, ao som dessa música:
“Chega a manhã em que sinto,
Que nada mais precisa ser ocultado,
Mas meu coração nunca ficará longe daqui.
Tão claro quanto respirar, quanto estar triste,
Trago na carne o que aprendi,
Vou embora acreditando mais do que antes,
E existe um motivo, um motivo para voltar,
Enquanto cruzo o hemisfério,
Tenho vontade de ir e desaparecer,
Eu me machuquei, eu me curei,
Agora me preparo para pousar,
Já estou pronto para pousar,
Tão claro quanto respirar, quanto estar triste,
Trago na carne o que aprendi,
Vou embora acreditando mais do que antes,
Este amor não tem limites…
Essa música diz tudo. Aí acontece o desastre, ele tenta ir embora, não consegue cruzar
o rio, fica ilhado, solitário, assustado.
Neste Capítulo final: Tornando-se sábio Christopher conhece Ron Franz, com quem
estabelece um relacionamento afetivo bastante intenso, podendo viver a experiência de ser
olhado, percebido, aceito e acolhido. O encontro desses dois personagens se dá
marcadamente pela questão do olhar, já que em várias cenas o diretor evidência um olhando
profundamente nos olhos do outro. Desde o início Ron demonstra perceber Christopher, por
exemplo, logo que se conhecem ele diz: “Você parece ser um rapaz muito inteligente.” E
prossegue interessado em conhecê-lo, fazendo-lhe muitas perguntas: “Há quanto tempo está
aqui?…E antes disso?… Quantos anos tem?…Não acha que deveria estar estudando,
trabalhando, fazendo algo útil?…Mas dorme no chão?…E sua família?…” Ele responde a esta
última pergunta dizendo que não tem família. Podemos pensar que ele não teve pais que o
olhassem e o percebessem como ele é, que se interessassem por seus desejos e seus
medos, e o acolhessem. Ron o acolhe, leva-o para sua casa, para o aconchego do seu olhar,
conta-lhe sua história pessoal e ensina-lhe seu ofício.
Nesse relacionamento há envolvimento mútuo, um aprende com o outro e dessa
forma, o crescimento, que é um processo cheio de altos e baixos fica favorecido. É curioso
que nesse período Christopher começou a treinar subir e descer montanhas. Parece que ele
aprendeu o que faltava para dar um sentido a sua história, começando talvez a integrar sua
experiência. Ele aprende o ofício de Ron e a partir daí estampa um cinto com o percurso de
sua viagem; e aliás, é a primeira vez ao longo do filme que aparece em seqüência
cronológica o seu percurso. Podemos pensar na introjeção de um modelo. Aparece em cena
a imagem de pássaros voando, e a imagem dele e Ron pescando; e fico pensando que para
alçar vôo, crescer, é preciso ter paciência.
Ron também aprende com Christopher, que o incentiva a experimentar novas
experiências; imagem lindamente retratada quando Ron consegue chegar ao topo da
montanha incentivado por Christopher, e o olha com gratidão. Nesse momento eles
estabelecem uma conversa onde Christopher diz que Ron está errado ao pensar que a alegria
da vida vem principalmente das relações humanas. Ron não o censura, não o contradiz,
respeita sua opinião, e diz que entende as coisas que ele lhe contou sobre seus pais, sobre a
igreja, mas que existe algo maior, que todos podemos apreciar,…, Deus. “Quando você
perdoa você ama. E quando você ama… a luz de Deus brilha em você.” Nesta cena aparece o
brilho do sol no céu. E os dois riem muito. Quando Christopher resolve partir para o Alasca,
Ron faz questão de levá-lo, dá-lhe instrumentos para ele poder sobreviver e lhe pede para
deixar adotá-lo como avô. E Christopher pede para eles falarem disso quando ele voltar do
Alasca e ambos se entreolham longamente e Ron chora.
As cenas finais do filme mostram Christopher, como ele mesmo diz, literalmente
aprisionado pela natureza. O rio enche demais e ele não consegue ir embora, não encontra
mais animais e começa a morrer de fome, até que come por engano uma planta venenosa e
vai realmente morrendo aos poucos. Nesse momento aparece a irmã perguntando: “O que
ele contaria agora?” Mostra o pai chorando sentado no chão, e a mãe na cozinha cortando
tomates. Irmã diz: “Chris estava escrevendo sua história, e só ele poderia contá-la.” Então,
segue a cena no ônibus com Christopher chegando a conclusão: “A FELICIDADE SÓ É REAL
QUANDO COMPARTILHADA”. Ele chora muito, olha o céu pelo teto solar do ônibus. Aparece
o que ele escreve num cartaz: “Tive uma vida feliz e agradeço a Deus, e que Deus abençoe a
todos. O selvagem Alexander SuperTramp. Maio de 1992.Christopher Johnson Mccandless.”
Podemos pensar que ele mudou de idéia em relação ao que tinha falado para Ron sobre as
relações humanas e levou em conta o que Ron lhe disse sobre perdão. Então consegue sentir
gratidão. Por último aparece um pensamento dele: “E se eu estivesse sorrindo e correndo
direto para seus braços?”, e mostra a imagem dele correndo em direção aos pais, os três
abraçados . Volta para a cena dele deitado olhando para o céu. Depois, ele pensa: “Vocês
veriam então… o que eu vejo agora?” E então ele morre, e aparece uma foto do Christopher
real.