A ANÁLISE DO ADOLESCENTE: Aspectos da técnica psicanalítica com ilustração de material clínico

Jurenice Picado Alvares

Resumo: A autora trata de questões referentes à técnica psicanalítica na análise do adolescente, apresentando as três etapas dessa fase da vida: puberal, nuclear e juvenil. Utiliza material clínico como ilustração.

Palavras-chave: adolescência, etapas, técnica.

Muitos autores já consideraram a análise de adolescentes como inviável. Esta era uma expressão corrente quando do início do trabalho com adolescentes, devido à falta de uma abordagem técnica mais adequada.

Essa técnica deve adaptar-se às características do adolescente, para haver uma escuta e diálogo propiciadores de desenvolvimento.

Entre as justificativas usadas para o não sucesso da análise, estão as de que o adolescente possuía escassa possibilidade de introspecção, de reflexão necessária para que se instalasse o processo analítico, e que possuía uma tendência a expressar seus conflitos através da conduta.

No entanto, é a observação e a compreensão da linguagem de ação, que possibilita o trabalho clínico com adolescentes.

“Nos adolescentes o fazer e o sentir devem coincidir, isto é, o adolescente não gosta de algo que se lhe apresente como pronto e definitivo, pois ele próprio não está definitivamente pronto. Dá-se conta do que sente à medida em que faz. Por esse motivo, é da maior importância que não nos precipitemos em qualificar como “acting-out” aquilo que no adolescente é experimentação absolutamente necessária para que se vá constituindo sua identidade”; e continua atestando que nós, analistas, “devemos ter esse fato em mente, quando estruturamos nosso setting – em vez de nos aferrarmos a um determinado número de sessões, ao uso do divã, e interpretarmos apressadamente como resistência uma saída intempestiva da sessão, antes que o tempo reservado para ela se esgote, melhor faremos se entendermos que o adolescente está expressando, dessa forma, sua imperativa necessidade de participar da construção de si mesmo”. Menezes Jr. (2000, p.4)

Além disso, a técnica do trabalho psicanalítico com adolescentes tem que dar conta da linguagem verbal corrente na sua cultura: gírias, termos usados por personagens valorizados por eles.

Na busca de sua identidade, o adolescente estabelece pseudo-identificações, que incorpora ou abandona (os super-heróis que são indestrutíveis, invencíveis, imunes à dor; professores; ou outro adulto com o qual se relaciona fora do seu ambiente familiar), e da mesma forma adquire modismos lingüísticos que servem, transitoriamente, como veiculação de idéias e sentimentos, que assim encontram expressão verbal.

Entre os modismos lingüísticos, temos a gíria, que é a expressão verbal do processo de diferenciação do adolescente, através da qual mostra a necessidade de ser reconhecido como portador de uma identidade própria, diferente da dos pais e dos adultos. Por ser a gíria um meio de comunicação, o analista deve estar familiarizado com ela. Em algumas circunstâncias, seu uso excessivo pode expressar resistência no campo transferencial, adquirindo um caráter banal ou hermético e incompreensível, por estar a serviço das defesas. Em contrapartida, pode haver uma diminuição no uso da gíria, à medida em que o adolescente progride na verbalização dos seus conflitos e se conscientiza do conteúdo de suas próprias fantasias transferenciais.

Assim, a observação da comunicação verbal e conduta não-verbal, ajudam na compreensão dos fenômenos interacionais de uma análise.

Outra característica apresentada pelos adolescentes são as alternâncias entre os movimentos regressivos e progressivos, entre extremos opostos, fazendo parte do processo normal da adolescência, indo em direção ao desenvolvimento mental.

Anna Freud (1958) diz que considera “normal para um adolescente se comportar, por uma duração de tempo considerável, de forma inconsistente e imprevisível; lutar contra seus impulsos e aceitá-los; defender-se deles com sucesso e ser dominado por eles; amar seus pais e odiá-los; rebelar-se contra eles e ser dependente deles; ficar profundamente envergonhado de reconhecer sua mãe diante dos outros e, inesperadamente desejar ter conversas íntimas com ela; gostar de conseguir imitar e se identificar com os outros e, ao mesmo tempo, buscar incessantemente sua própria identidade; ser agora, mais do que nunca será no futuro – idealista, artístico, generoso e altruísta, mas também o oposto: auto centrado, egoísta, calculista”. p.275

Carvajal, ao falar da adolescência como “a aventura de uma metamorfose”, apresenta as três etapas dessa fase da vida: puberal, nuclear e juvenil, e sublinha que “o adolescente se recolhe em seu casulo, sendo uma crisálida em absoluta transformação, diferente da larva da infância e da borboleta da vida adulta”. (1999, p.10)

Essa transformação acontece em meio a turbulências emocionais, e é acompanhada por um sentimento de catástrofe, na qual coexistem: “o luto por aquilo que se perde, a disponibilidade pelo novo e a capacidade de metabolizar as emoções que surgem” (Ferro, 2005, p.143), dando lugar a uma nova organização, capaz de sustentar a maturidade emocional.

Dessa forma, a tarefa do adolescente é fazer o luto do seu corpo de criança, de seus interesses, de sua maneira de ser e de se relacionar com os objetos primários, e ir se adaptando ao novo corpo, aos novos interesses que surgem, à sexualidade, resultando na individuação e identidade própria, enquanto os pais também vivenciam o luto pelos filhos da infância, dando lugar a singularidade dos filhos adolescentes.

Não podemos esquecer que a adolescência é um processo psicossocial, portanto, sofrerá influência dos aspectos sociais, econômicos e culturais da sociedade onde o adolescente se insere.

Para facilitação dos necessários movimentos regressivos em busca de uma forma de expressão, mesmo para os adolescentes das duas últimas etapas (nuclear e juvenil) é

fundamental que se coloque à disposição algum material gráfico (papel, lápis, canetas hidrográficas, tesoura, cola, etc) e, se solicitarem, revistas com seus assuntos preferidos. Na fase inicial (puberdade), além desse material podemos oferecer recursos para expressão lúdica.

É muito importante que o adolescente sinta-se com liberdade para introduzir no setting analítico suas formas habituais de expressão que fazem parte da sua realidade externa à sala de análise; muitos utilizam-se de celulares, diários ou outros objetos, para ajudar na comunicação de suas fantasias no percurso do trabalho analítico.

A natural inclinação do adolescente para buscar a expressão artística como elemento de apoio de sua identidade emergente, poderá fazê-lo querer introduzir no contexto das sessões, não só o instrumento musical que carrega e toca, como eventualmente até mesmo um membro de seu grupo. Tratam-se de situações inusitadas, incomuns, diferentes, que exigem do analista a flexibilidade e manejo necessários para que o adolescente possa sentir o setting analítico como acolhedor.

Exemplo clínico

Pedro, um jovem músico guitarrista e vocalista veio procurar análise devido ao uso de drogas. Estava interessado em tratar-se, pois queixava-se que não estava conseguindo resistir ao uso das drogas, o que atrapalhava sua carreira artística, além de deixar sua voz rouca. Algumas vezes chegava às sessões “chapado” e mal conseguia falar, outras vezes dormia durante seu tempo de sessão. Nesses momentos eu o sentia distante, como um bebê que regressasse à vida intra uterina. De minha parte parecia-me que ele esperava continência materno primária nesses momentos críticos, que contrastavam com outros momentos onde trazia suas composições, tocava o violão e cantava. Eram letras sensíveis, que expressavam suas emoções. Era a forma que ele encontrava de se comunicar comigo, de falar de seus sentimentos, oferecendo algo de seu fórum íntimo: suas composições, as quais, no momento, pareciam representar uma espécie de reduto de sua auto-estima. À medida que conversávamos sobre o conteúdo das letras, abriam-se brechas para a compreensão do material conflitivo inconsciente, não passível de acesso pela via da comunicação verbal convencional.

Indicação de análise

Normalmente quem traz o adolescente para a análise são seus pais, porém é necessário que haja uma demanda própria, que a sua perturbação emocional esteja lhe causando mal-estar e sofrimento, e não apenas aos pais.

Se o adolescente for empurrado para uma análise, pode adquirir uma postura defensiva e lutar para não aceitá-la, para contrariar os pais e as normas sociais, lutando por sua independência.

No entanto, se a iniciativa partir do adolescente é sinal que ele reconhece a existência de suas dificuldades e do seu sofrimento, sendo este advindo de qualquer tipo de psicopatologia, desde que esta não impossibilite uma demanda por parte dele.

Há indicações para análise quando a estruturação da personalidade do adolescente é frágil, assim como seu sentimento de identidade. O adolescente nesta situação pode sentir-se paralisado em seu projeto de vida, apresentando além disso, precária condição para enfrentar traumas. Entre estes, as tarefas a serem elaboradas na adolescência e os eventuais da vida cotidiana (perda de um dos pais, mudança de cidade, país, etc)

Nas situações psicopatológicas graves estariam os quadros de intenso sofrimento psíquico e muita angustia, vinculados à hipocondria, neurose obsessivo-compulsiva, ou com sintomatologia fóbica.

Etapa puberal

A puberdade é um processo biológico, ponto de partida da adolescência e aparece como uma crise, a eclosão puberal, chamado por muitos de crise do crescimento físico e psíquico, como nos mostra a origem etimológica da palavra “adolescência”.1 Nesta fase, há um rompimento com os fenômenos infantis e um isolamento do mundo externo, o adolescente se volta para suas fantasias que compartilha com um amigo íntimo.

O púbere terá que começar a se desidentificar das relações idealizadas com os pais, na tentativa de constituir um self, daí a necessidade de se afastar dos pais para se reconhecer. Tudo isso é feito com muita angustia, havendo um conflito entre se fusionar e deixar de ser, se rebelar e romper com os pais.

Na análise do púbere, a situação mais clássica de condutas fóbicas é o aparecimento do terror noturno, do medo da morte, de monstros que possam lhe fazer mal, o que o leva a não querer dormir sozinho. A análise dessas fantasias nos permite observar que, subjacentemente, há uma excitação genital de características masturbatórias, por isso necessita da companhia física de alguém como defesa contra essa invasão pulsional.

Essa invasão de novas e poderosas forças eróticas exigirá do púbere representações psíquicas não distorcidas, no que será auxiliado pelo analista.

Quanto ao medo da morte, acompanhado muitas vezes por fobia e depressão ansiosa, pode se dar devido à perda dos pais internos infantis, frequentemente acompanhada de culpa pelo parricídio inconsciente. O medo então condensa perda e culpa.

A sintonia do analista aos medos e temores do púbere, ajudando-o a dar representações às suas pulsões, assim como a curiosidade e o desejo de conhecer do analisando, são fatores que irão lentamente ampliando seu funcionamento psíquico.

“As vivências de despersonalização, outro fenômeno comum na adolescência, seriam uma das manifestações clínicas mais vívidas da luta entre os impulsos antagônicos de separação e fusão, em que por momentos fugazes (adolescentes normais) ou duradouros (adolescentes esquizóides), a busca do sentimento de identidade pessoal vê-se ameaçada pela persistência ou retorno à condição simbiótica original”. Osório, (1993, p.411)

Exemplo clínico

1 Adolescência: com dupla origem etimológica, vem do latim e significa “a, para (ad) crescer (olescer)”; também deriva de adolescer, que vem do latim adolescere e significa adoescer, passar por metamorfoses biológicas, mentais e sociais para crescer e atingir a maturidade.

Apresento um fragmento clínico de uma púbere, de onze anos, que chegou com a queixa de não conseguir dormir sozinha e logo depois trouxe seu medo de morrer.

A mãe de Mara procurou-me porque sua filha estava com dificuldade para dormir, “pegar no sono”. Não conseguia ficar sozinha em seu quarto, pedindo angustiada a presença da mãe. Contou uma situação recente, onde não sabendo mais o que fazer, obrigou a filha a executar exercícios físicos, pensando que cansada ela dormiria, mas para sua surpresa tal fato não ocorreu, pelo contrário, ficou ainda mais “ligada”. A mãe dizia estar exausta, desesperada por não saber o que fazer, referia que não gostava de bater e completou informando que quando a família viajava e ia para um hotel, o pai dormia na cama de solteiro e Mara ficava com a mãe na cama de casal. Quando o pai tentava colocar limites, apontando o tamanho dele em relação à cama e seu desconforto, Mara ficava muito ansiosa e dizia para a mãe: – Mas eu quero você! A mãe ficava angustiada e permitia que a filha dormisse com ela.

A dificuldade de Mara dormir nos mostra a falta de mente para metabolizar as novas vivências que a invadiam, e a dificuldade da mãe em ajudá-la mentalmente. A análise vai propiciar o alargamento do espaço mental, e da capacidade de representar as experiências emocionais do adolescente.

Depois de quase um ano de análise, Mara já dormia sozinha e trazia sonhos. Ao retornar das férias de inverno, conta:

M: – Nas férias eu senti algo muito ruim. Estava vendo TV e tive uma sensação de que ia morrer. Quando fui dormir me lembrei disso e chamei minha mãe para ficar comigo, porque não estava conseguindo dormir. Vinha na minha cabeça que eu ia dormir e morrer, e eu fiquei com muito medo. Lembrei da minha tia que morreu dormindo. Foi uma sensação horrível, eu não parava de pensar nisso.

Quando contei para minha mãe ela ficou muito brava, disse que podia ser o meu inferno astral2.

Pergunto-lhe:

J: – O que você assistia na TV? Ela responde:

M: – Um programa da Disney Channel, era divertido.

J: – Que bom seria se a gente pudesse sempre se divertir com os programas da Disney Channel, como uma criança. Mas quando acaba o filme e você vai dormir percebe que é uma mocinha e que a infância está morrendo.

Este material retrata que a “morte” referia-se a seu sentimento de estar perdendo a infância, de seu corpo estar se transformando no de uma moça, de uma mulher. Ao mesmo tempo que Mara desejava muito isso, assustava-se por ser algo desconhecido.

Pensando sobre a questão da relação simbiótica de Mara com sua mãe, orientei os pais quanto à necessidade de terem uma vida de casal, saindo e viajando sozinhos, pois sempre viajavam com essa única filha. O pai disse que não gostava de ficar sem a filha, mas entendia e aceitava a orientação. Eles fizeram amizade com um outro casal e já viajaram

2 Inferno astral é a época que antecede o aniversário.

duas vezes sem ela.

Na primeira vez, Mara se revoltou por não poder ir com eles e disse que iria aprontar. A mãe mostrou-se preocupada e receosa, enviando para mim uma lista de telefones para contato. Na segunda vez que seus pais viajaram Mara gostou muito, havia experimentado que com sua avó ficava mais livre: ela permitia que Mara saísse com as colegas e a levava para encontrar-se com o menino do qual gostava.

Etapa nuclear

Essa etapa se caracteriza basicamente pelo aparecimento do grupo, que se torna o centro dos interesses do adolescente, onde o lema é não ser rejeitado e sim incluído.

É a época dos porres, dos escândalos, do furto dos veículos familiares, da velocidade exagerada, do abuso de entorpecentes, da gravidez irresponsável, da desobediência constante e desafiante, da ruptura da norma, do desafio aos costumes, da moda estrambótica, da tentativa de aterrorizar o resto da sociedade, da deserção escolar, da formação de gangues, etc. Carvajal (2001).

Paradoxalmente, é também a época da originalidade, da criatividade, do otimismo, da exigência de uma norma justa e flexível, dos maiores desejos e da busca do bem-estar comunitário, da mudança, da justiça social, da luta contra o inautêntico e pacato, do progresso, da felicidade, do início de atividades desportivas. Carvajal (2001)

Uma deformação do fenômeno grupal é a “gangue”: um grupo que tem como meta um enfrentamento violento e direto com as normas estabelecidas.

O meio escolar não conhece a crise do adolescente nuclear e simplesmente o qualifica de indisciplinado, enquanto a gangue o recebe e acalenta. Aos educadores cabe uma atitude de disponibilidade de escuta (Sociedade dos Poetas Mortos)3 para que haja uma razoável internalização das funções de aprendizagem no self.

Podemos observar o movimento progressivo/regressivo: alternâncias de estados mentais infantis e mais desenvolvidos fazendo parte das elaborações normais da adolescência. Tal ocorrência pode ser observada no fragmento de análise.

Exemplo clínico

Bela, dezesseis anos, traz um sonho:

Estava dentro de um canal vazio, sem água, com o namorado, havia uma porção de pessoas em volta, atrás dessas pessoas o mar. Viu seu irmão mais velho vindo na direção dela e do namorado. Tinham recebido de uma colega chapéu e óculos para se disfarçarem, para o irmão não os reconhecer. Mas, percebendo que o irmão os havia reconhecido, foi andando para o centro, fugindo dele, enquanto ele vinha pelo canto. Ele percebeu e tentou afogá-la, abaixando-lhe a cabeça no mar, dizendo que não era para contar sobre o

3 Filme: Deads Poets Society, EUA, 1989, dirigido por Peter Weir. Elenco: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke e Josh Charles. O filme retrata uma escola preparatória para jovens, a Academia Welton, na qual predominavam valores tradicionais e conservadores.

casamento dele, ameaçando que, se contasse, iria se ferrar. Ela conseguiu fugir dele, nadando por debaixo da água.

Bela associou o sonho com o fato de seu irmão ter contado somente para ela que iria se casar e pediu-lhe que nada dissesse em casa. Lembrou que, contando o sonho para sua mãe, esta lhe falou que podia ser porque assistira a um filme, antes de dormir, em cujo enredo havia um homem amarrado por uma corrente numa piscina que estava enchendo e ele não tinha como escapar.

Bela orgulhava-se do irmão ter contado para ela antes de todos, relatando que era muito ciumenta desse irmão, e ele, dela. Dizia que, quando presenciava uma atitude de carinho dele com a namorada, se afastava. Sentia ciúme.

Mostro-lhe a extrema ambivalência em querer “casar” e o desejo infantil de permanecer para sempre protegida no mar-mãe. Trata-se de um paradoxo entre querer permanecer criança e ao mesmo tempo querer ser uma mulher.

Etapa juvenil

É a porta de entrada para a juventude, para o início da vida adulta, onde há a escolha do parceiro, da profissão, de um sistema de valores pessoais e de uma relação de reciprocidade com a geração precedente, sobretudo com os pais.

O adolescente dessa etapa “vai querer ser mais um adulto dentro do contexto grupal adulto, mesmo quando em sua essência continue sendo um adolescente”. Carvajal (2001, p.99)

Exemplo clínico

Denise, vinte e dois anos, terminou o curso de Enfermagem e não sabe se é isso que quer fazer, pois chora ao ver o sofrimento das pessoas.

Sua expectativa é que na análise possa saber quem ela é, e o que quer para si; que curso realmente deve fazer para desenvolver uma profissão, ter uma independência dos pais e uma satisfação acompanhada de realização.

Diz que sempre foi muito grudada com sua mãe, está tentando se desprender de sua tendência a falar tudo para ela, para que esta lhe diga o que deve fazer, ou escolher. Tem necessidade de uma individuação para apropriar-se de si e sentir-se enriquecida internamente.

Está conversando pela Internet com um rapaz para saber se vai namorar. Sente necessidade de ter uma companhia, um namorado, acha muito bom poder trocar, falar, na relação. A ausência de um parceiro parece deixá-la solitária, sem ter com quer sair e compartilhar.

No meu entender embora com vinte e dois anos Denise traz todos os conflitos das fases anteriores: dependência dos pais (mãe), necessidade de convivência grupal, assim como tende a buscar um parceiro e profissão, o que é próprio desta fase.

Esta última etapa é atualmente a de mais difícil superação em nossa cultura ocidental. A cada dia é mais complicado conseguir o auto sustento. A competição no trabalho e a

necessidade cada vez maior de buscar a sobrevivência fazem com que o adolescente permaneça na etapa juvenil, às vezes até, embora casado, continuando a ser sustentado pelos pais.

Os pais do adolescente

A crise da adolescência sempre é uma crise familiar também. Segundo o antigo provérbio chinês, “não há família que possa ostentar o cartaz: „Aqui não temos problemas‟”. Bettelheim (1976)4

“A adolescência é um desafio, para cujo enfrentamento os pais podem ser cooperadores, ou não. Desafio que eles devem aceitar como parte de sua função de pais adultos, e nós analistas também”. Alvares (2009)

Os pais, idealizados pela criança, descobrem que são desvalorizados ou até denegridos pelo adolescente. Necessitam, entretanto, “sobreviver”, pois a tarefa da adolescência não é de uma ruptura com a família, mas sim a transformação de vínculos infantis de relacionamento em um outro tipo de vínculo mais independente e de maior tolerância, menos idealizado, dentro dos elementos da realidade. Isso o obriga a fazer um “luto” pelos pais da infância, processo doloroso tanto para os adolescentes como para os pais.

Os pais do adolescente também necessitam fazer o luto dos filhos infantis. Algumas vezes podemos observar pais que se manifestam de modo muito ambívalente: desejam o crescimento, desenvolvimento do filho, mas também o tratam como criança.

O adolescente, ao se contrapor aos pais, está definindo-se a si mesmo e a seus objetivos, o que é necessário para a formação da sua própria identidade. Esta só pode ser obtida pela renúncia à dependência da infância para alcançar a interdependência adulta, na relação com o outro em um vínculo criativo.

No caso clínico citado (etapa nuclear), a relação de Bela com sua mãe, considerada amigável no início do trabalho analítico, passou a ser conflitante. Sua mãe dizia não entender a agressividade da filha e interpretava como ódio. Revoltava-se, dizendo não ser merecedora disso. Também não entendia o fato da filha em alguns momentos desejar ser adulta, querer namorar e, em outros, ser uma criança que pedia presente no Dia das Crianças. Alvares (2008)

Podemos perceber a reação da mãe de Bela frente a mudanças, à passagem da filha para a adolescência. Bela se afastava para poder crescer e isso era interpretado por sua mãe como ódio.

Os pais procuram ajuda terapêutica, por se sentirem fracassados como pais, narcisisticamente feridos.

É muito importante que os pais e o adolescente se conscientizem do problema existente e qual é a participação de cada um.

4 Outeiral, J.(2008) A adolescência e a família. In: Adolescer. RJ: Revinter Ed. p.13.

Além disso, a patologia do filho pode significar um patológico equilíbrio familiar. Quando a família é simbiótica, o analista, como terceiro, ameaça uma ruptura e o risco do surgimento de ansiedades primitivas.

O progresso do adolescente exige um trabalho constante com a família, no sentido da aceitação de suas mudanças e autonomia, (como no caso clínico, etapa puberal) e muitas vezes, quando a patologia familiar é grave deve-se indicar terapia familiar e/ou análise aos pais.

O analista deve receber os pais, durante entrevistas ou tratamento, com ou sem a presença do adolescente, sempre que for necessário intervir em questões do paciente, com a intenção de acolher o sofrimento dos pais e do próprio adolescente. Isso pode evitar o boicote à análise, a interrupção do tratamento, a transferência negativa em relação ao analista.

A relação íntima com seu paciente, porém, deve ser preservada, seus segredos e comunicações; assim, quando os pais requerem orientação ou entrevista, é importante que antes o analista converse com o adolescente e resolva junto à ele qual a direção desse encontro, esclarecendo aos pais que a análise é do filho e por isso manterá reserva sobre ela.

Uma outra situação é que a crise da meia idade dos pais frequentemente acontece em paralelo à adolescência dos filhos e são influências importantes sobre a perspectiva evolutiva e do trabalho da análise. São as disputas de poder, confronto de ideologias, conflitos de gerações: o adolescente contempla o futuro enquanto os pais avaliam a competência de suas realizações. (A Guerra dos Roses)5

Setting analítico

Para que uma análise se desenvolva o setting é fundamental, constitui a estrutura que possibilita a emergência de conteúdos do analisando.

Zac de Filc (2008) em sua reflexão a respeito do setting no trabalho com adolescentes, diz que a situação analítica é o conjunto de condições que determinam a evolução do processo analítico, incluindo tudo o que acontece. Na situação analítica, o setting, que precisa ser construído cuidadosamente pela dupla, constitui o conjunto de acordos entre analista e analisando que tem por objetivo facilitar o processo e delinear os limites essenciais do trabalho, garantindo contexto e significado às ações de cada um e suas relações.

Essa relação vai possibilitar ao adolescente mostrar o impacto que o mundo externo no qual vive causa em seu mundo interno, suas relações objetais internas, sua vida emocional. Portanto, o setting é o que permite à dupla analítica pensar e sentir sem interferência externa.

Concordando com Hanna Segal, Sara Filc argumenta “que a receptividade do analista a idéias novas deva ser considerado o aspecto mais importante do setting”, além da atenção flutuante, da ausência de atuações na relação com o analisando, e da capacidade de oferecer uma mente receptiva às expulsões e atuações do analisando; essas atitudes permitirão que

5 Filme: The War of the Roses, EUA, 1989. Direção de Danny DeVito. Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito. Um casal, não conseguindo elaborar a separação dos dois filhos que partiram para o College, após algumas tentativas de reorganização existencial, entra em uma situação de conflito muito violento, e que na realidade encobre a impossibilidade do luto, que levará o casal a atuações de violência e de destruição, até a morte de ambos.

“os eventos ocorrentes dentro do tempo e do espaço da análise gerem um espaço de crescimento constante e que o par analítico progrida em busca do insight das verdades do paciente” (p.158). Espaço onde as transformações acontecem, pois é nele que a experiência emocional circula, onde o paciente pode ser e experimentar.

O estabelecimento fixo dos dias, horários e duração das sessões é outra característica do setting que pode gerar protesto por parte dos adolescentes, embora em menor freqüência do que se supõe, pois de certa forma estão acostumados a cumprir horários em outras atividades cotidianas. Tentam também estender as férias da análise, equiparando-as às férias escolares.

A respeito do aspecto financeiro, ainda que seja geralmente estabelecido com os pais, pela situação de dependência econômica dos adolescentes, os analisandos devem ser informados e participar do mesmo.

Quanto às vicissitudes na forma do adolescente chegar ao consultório, na minha experiência são variadas:

Lembro de uma adolescente de doze anos que me procurou por indicação da analista de sua mãe e se responsabilizou pelo contrato de trabalho, permanecemos juntas por volta de cinco anos, até ela ingressar na Universidade. Tive um contato com sua mãe e seu padrasto para conhecê-los e, em raras ocasiões, falei com sua mãe por telefone devido à alguma necessidade eventual.

Helena com quatorze anos, chegou acompanhada de seu irmão mais velho, de vinte e dois anos, e a avó paterna. A queixa era que o relacionamento de Helena com sua avó materna, com quem morava mais o avô e seus dois irmãos, um outro de dezenove anos, estava insustentável. Sua mãe havia falecido quando Helena contava cinco anos de idade. Nessa ocasião, sua mãe já era separada do seu pai que morava no interior e ela o via muito raramente. A adolescente e sua avó estavam se agredindo verbalmente e algumas vezes chegaram à agressão física, pois Helena não obedecia, não colaborava com as tarefas domésticas, o que anteriormente não acontecia.

Ao perceber a família atravessando um momento de desorganização e interessada em ajustar tal situação, sugeri terapia familiar. Todos aceitaram e todos vinham duas vezes por semana. Depois de alguns meses, apontei e orientei quanto à necessidade de Helena e do seu irmão do meio iniciarem um trabalho analítico.

Uma outra adolescente, Bela, de quinze anos, chegou à análise com sua avó paterna, sendo que o contato com sua mãe foi restrito, e com o pai nenhum.

Início do tratamento

O primeiro contato com o adolescente dificilmente coincide com o início do trabalho analítico, pelo menos algumas entrevistas se realizam antes que inicie sua análise. Este é um momento de grande importância, tem como meta esclarecer o que está acontecendo com ele e seu entorno.

Ao receber os pais em entrevista conjunta, após entrevista com o adolescente, temos por objetivo apreender suas percepções em relação aos problemas que trouxeram seu filho à análise, diminuir suas resistências ao atendimento do mesmo e, principalmente, incluí-los numa possível aliança terapêutica visando que o processo terapêutico não tenha outras interferências que as próprias.

Nessa entrevista serão tratados também os aspectos formais do contrato. Na presença de ambas as partes, são abordadas questões tais como o sigilo profissional e a realização de entrevistas com os familiares no decurso da análise, se necessário.

Se a entrevista inicial acontecer com os pais, devemos transmitir ao adolescente as informações que eles deram, comunicando aos pais que o faremos. As informações as quais me refiro são as pertinentes à pessoa do adolescente, não é necessário falar a opinião dos pais sobre ele, ou de algum problema particular do casal, ou de algum deles, pois trata-se de algo que nos foi reservadamente contado e não serve ao adolescente.

O uso do divã

O setting na análise deve permitir ao adolescente que se movimente na sala de análise, caminhando, gesticulando, mudando de lugar, pois só assim estará usando de todo o seu potencial comunicativo, facilitando o acesso ao seu mundo afetivo.

Dessa forma, o uso do divã, deve ser absolutamente facultativo, e o não uso não pode ser entendido como resistência. Aliás, pode ser contra indicado para alguns adolescentes por não permitir uma liberdade de expressão da linguagem condutal, da ação, assim como a privação sensorial pode intensificar as ansiedades persecutórias.

A mente do analista

Além das adaptações técnicas, outra adaptação ainda mais importante refere-se às condições mentais do analista: que deve ter um setting muito bem constituído, que possa evocar introspectivamente sua própria adolescência e suas vicissitudes para a captação contratransferencial do sofrimento subjacente do adolescente (Osório, 1993, p.421), assim como sua capacidade de responder adequadamente com todo o seu self. O analista deve ter liberdade de movimentos e clareza de sua situação emocional para o favorecimento do diálogo analítico.

Também é fundamental que o analista tenha uma atitude de paciência e empatia para com a dor psíquica do adolescente, um dos principais instrumentos para o manejo das situações analíticas, paralelo a intervenções que mostrem sua compreensão das dificuldades que o adolescente tem para revelar sua intimidade.

Função do analista

A função do analista será a de abrir um espaço para o aparecimento da dúvida e da incerteza, evitando o surgimento de confrontação e interpretações saturadas. Trata-se de oferecer um continente para pensar os pensamentos, favorecendo a construção de um

pensamento próprio. Ser continente requer do analista em muitos momentos a firmeza para apontar comportamentos de risco do adolescente.

É comum o adolescente se apresentar através de uma comunicação impulsiva e a função do analista será de colocar palavras (reflexão) onde provavelmente só haja ação (descarga). O analista deve ser capaz de acolher um acting como ação comunicativa, buscando seu significado, pois dessa forma poderá ajudar o adolescente a pensar antes de agir, exercitando capacidade de contenção.

Concluindo

Atualmente, o trabalho com adolescentes é considerado viável e gratificante. Entretanto não podemos esquecer que é um trabalho difícil, mas que apesar das suas dificuldades, permite consolidar a base para uma vida adulta emocionalmente mais estável, rica e criativa.

Referências

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ZAC DE FILC, Sara. Reflexões a respeito do setting no tratamento de adolescente.
Livro Anual de Psicanálise. Tomo XXII – 2008. São Paulo: Editora Escuta Ltda, p.157-167, 2008.

[1] Trabalho apresentado na III Jornada de Psicanálise da Criança e do Adolescente do NPCR – setembro de 2009.

Publicado na Revista do NPCR. Ano XII, número XVII – pág. 215-234 – agosto de 2010. Apresentado no Projeto Prata da Casa do Núcleo de Psicanálise de Santos e Região – Santos – outubro de 2010.